sexta-feira, 16 de junho de 2017

Os Pilares da Terra de Ken Follett




Não há recompensas para quem perde, monge (...). 
No mundo de verdade, fora do mosteiro, ninguém toma conta de você. 
Os patos engolem as minhocas, as raposas comem os patos, os homens matam as raposas
 e o demônio caça os homens. (página 838)

Stanley Kubrick já se referiu à produção de Star Wars como algo que deu certo porque possuía elementos positivos que a tornavam boa. Confuso. Mas foi mais ou menos isso que ele disse, apenas não pesquiso melhor agora porque está na edição de Paul Duncan que possuo em meu acervo e isso daria bastante trabalho. E, ao ler Os Pilares da Terra de Ken Follett, recordei imediatamente de tal afirmação. O calhamaço de quase mil páginas em fonte pequena teria tudo para ser uma droga com suas personagens superficiais e de limites éticos bem definidos (você é bom ou mau, puro maniqueísmo). Além disso, muitas páginas sobre arquitetura gótica e os conflitos meio clichês entre nobres e clérigos também nos dariam uma leitura enfadonha. Só que o romance, de alguma forma, é bom e nos seduz do início ao fim sem capítulo chato. Daí sua boa aceitação junto ao público, no geral. Confesso, contudo, que apenas recentemente conheci a obra e a comprei numa promoção onde me saiu por menos de R$ 40,00. Para um volumão em capa dura, foi bom. O trabalho da editora Rocco é razoável. A capa dura com letras douradas são mimos para os padrões brasileiros. A lombada é resistente e permite abrir bastante o volume sem receio de parti-lo. A fonte e o espaçamento, contudo, realmente não tinham como ser maiores; a não ser que dividissem tudo em dois volumes. E, destaco, há erros grosseiros que passaram pela revisão. A tradução foi de Paulo Azevedo num texto que consegue fluir bem.

Retornando ao romance em si, como resumi-lo? É difícil. Vamos lá. Tom Construtor está em busca de trabalho para que sua família não morra de frio ou fome no ano de 1135. Ele acabou de ser dispensado da construção de um casarão para William de Hamleigh, noivo de Lady Aliena, filha do Barão de Shiring. O casamento é cancelado por vontade da noiva e Tom ficara sem emprego, com dois filhos para alimentar além da esposa grávida. Em sua jornada em busca de trabalho, sua vida se cruzará com Ellen - mulher forte e meio selvagem, que vive na floresta com seu único filho, Jack -, o generoso monge Philip e o cruel sacerdote Waleran Bigod, a edificação de uma magnífica catedral e todo o caos que permeou o período conhecido como "A Anarquia", logo após o falecimento do Rei Henrique e as sucessivas disputas pelo trono. O prólogo ocorre em 1123, onde se dá o enforcamento de um jovem aparentemente insignificante, tudo com cheiro de intriga palaciana. Mais à frente, o já maduro e ressentido William de Hamleigh castigará novamente Tom Construtor e todas as pessoas que o cercam. E a trama encerra-se em 1174, onde fica visível ao leitor que o mundo está mudando. Obviamente não tenho como me estender mais aqui sem revelar trechos essenciais do enredo. Além disso, conquanto não se trate de um romance enciclopédico, há muitas personagens e, de certa forma, cada uma com sua relevância. Impossível resumir sem ser extenso.

Gostei bastante de me perder em descrições sobre o modo de vida rural, as formas de sobrevivência - seja pela agricultura arcaica ou pela caça -, as descrições da vida imunda nas cidades que surgiam e como, hoje, temos tanta riqueza à nossa disposição mesmo sendo meros assalariados. Qualquer adolescente classe média baixa, hoje, tem a vida com a qual nenhum nobre medieval sonhara: tecnologia, entretenimento, acesso fácil à educação e à informações, casa coberta com saneamento e colchão macio onde dormir, três boas refeições no dia (no mínimo), medicamento e acesso à saúde. E, claro, transporte para encurtar o mundo. Além dessas descrições sobre a vida prática do homem medieval, também destacam-se narrações sutis do autor indicando instrumentos da vida moderna prestes a se difundir. Assim, por exemplo, num determinado momento, o pior Philip propõe a Aliena lhe vender a lã estocada no priorado mais a lã que terá no ano seguinte, só que pelo preço atual. Ela estranha, pois nunca ouvira falar de algo assim. Seria bom para os monges, que precisam do dinheiro e também, a longo prazo, para ela. Sem dúvidas, estamos diante de algo similar ao mercado de futuros. Também presenciamos a reorganização profissional em guildas que se assemelham às nossas modernas associações e sindicatos, inclusive quanto ao lado grotesco do corporativismo e os movimentos paredistas por motivações dúbias ou obscuras.

Conquanto meio maniqueísta (e, logo, romântico) na construção de seus personagens de folhetim, Ken Follet foi cru na descrição do modo de vida duro, na crueldade de certos nobres, na safadeza e malandragem do próprio camponês, nos momentos de luta pela vida (até a morte), nos estupros etc.. A doce princesa existe, na trama; só que deflorada por estupro coletivo e, quando encontra seu amor, este, como bom medieval, tem o pinto coberto de sebo, pois provavelmente toma banho apenas uma vez ao ano. "Lirismo com pé no chão", é como posso descrever.

Subjacente às todas as pequenas tramas "palacianas", o autor nos deixou com um intrigante mistério envolvendo o misterioso enforcamento descrito no prólogo, a selvagem Ellen e seu esquisito filho Jack.

Em 2010, houve a adaptação do romance para TV.

Livro que vale a pena ser lido. Quanto à adaptação mencionada, não assisti.

Abraços a todos e até a próxima.

2 comentários:

  1. "Qualquer adolescente classe média baixa, hoje, tem a vida com a qual nenhum nobre medieval sonhara" e as pessoas ainda pensam que no passado a vida era melhor.

    abç!

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    1. Gente rebelde que queria viver noutro tempo, longe do malvadão "capital financeiro", mas que não sabe cagar fora de casa. :-)
      Acho que foi por vc que tomei conhecimento desse livro.
      Abç!!!!

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