segunda-feira, 1 de maio de 2017

Minimalismo de boutique


Chico Bento Descascando Milho sobre O Caipira Picando Fumo de Almeida Júnior. Minimalista é o Chico que vive de banho em riacho, goiaba tirada do pé e amassos com Rosinha no meio do mato. O resto é lugar-comum.

Em alguns aspectos, levo uma vida simples. Há aproximadamente quatro anos não compro um sapato nem calça jeans ou social. Neste mesmo período, passei a comprar apenas camisetas baratas de lojas como Americanas, Riachuelo e Renner. Não foi nada planejado, apenas não me senti mais à vontade em pagar R$ 250,00 numa camisa, até porque não frequento mais eventos sociais que exigem roupas muito formais e tampouco meu trabalho exige isso, vez que 80% dele é feito nas ruas e em zonas rurais. Aderi às calças de tecido leve, tipo aquelas de conjunto de moletom. Outro luxo que não possuo é perfumes, mas isso desde sempre. Durante toda a minha existência, tive dois perfumes, os quais nunca usei. E foram presentes. Desodorante é uma necessidade da qual não posso fugir, mesmo assim há dias onde o deixo de lado e meto apenas limão (tenho limoeiro em minha casa).

Também vou pouco a cabeleireiro. Geralmente, tiro tudo em casa mesmo, com barbeador elétrico. Hoje em dia eles chamam de aparador de pelos masculino. Para mim: barbeador. É prático e estou gostando de assumir a careca. Serve até para arejar as ideias, com o vento frio na cabeça. E quase nada é tão prático quanto sair de casa sem sequer se olhar no espelho. O mesmo barbeador é o utilizado para fazer a barba. Já é o meu terceiro aparelho. Dura bastante e comecei a utilizar máquina desde a faculdade, ao invés de lâminas. A barba não fica bem feita, só que não faço questão disso. Cara lisinha é para mulheres e crianças. Me recuso a pagar quase R$ 50,00 regularmente em conjuntos de lâminas de barbear.

Não tenho interesse em ser aceito socialmente pela forma que me visto ou pelo perfume que utilizo. Não preciso chamar atenção de mulheres. Na verdade, queria que metade das que conheço e com quem fiquei sumissem de vez de minha vida pois, em regra, enchem o saco com ligações e mensagens inoportunas. E, de resto, a melhor companhia feminina para sexo é sempre a de profissionais, as quais você paga para irem embora rápido e sem dramas. E também não mantenho a conduta acima porque sou exatamente um minimalista. Posso não gastar muito com estética e aparência. Entretanto, tenho meus bagulhos e uma casa suficientemente grande para guardá-los. Coleciono livros e HQs e alguns cacarecos. E às vezes pago caro por algumas edições desejadas. Não pretendo me desfazer de nada, ao menos por enquanto. O que passei para frente, entre "doações" e sorteios, foi lixo, o qual realmente não valia a pena manter por perto. Lixo para mim; para quem recebeu, boas publicações. E agora que possuo minha filha (a qual será a única, creio), é que não me livrarei de nada: talvez ela venha a se interessar pelas mesmas coisas que eu. Então ficará de legado.

Também gosto de carros e não fiquei apenas em um. Preciso de dois para facilitar meu cotidiano, especialmente por ter criança. Torna a vida mais prática. São fontes de despesa até porque não costumo utilizar veículo abaixo de motor 2.0, que pode até colocar nossa vida em risco durante ultrapassagem ou eventual evasão de algum local. Mas não ralamos para fazer polpudos aportes mensais, para apenas poupar. Primeiramente, trabalhamos como jumentos para ter boa qualidade de vida e não economizar em exigências vitais. Os poupadores veem carros como despesa; eu, como conforto e ganho em qualidade de vida. É assim que enxergo a maioria desses "neo aportadores", hoje bem visíveis diante do sucesso do grande número de canais de finanças pessoais e investimentos no Youtube, onde um cara chegou a sugerir a você parar de tomar cerveja e investir isso numa aposentadoria complementar. Já outro não via mais razão para sair com amigos e família para comer fora, já que é bem melhor aportar a receita desse lazer em fundo imobiliário. Os extremos se tocam, dizia minha mamãe. Da mesma forma que esses caras criticam (com razão) gastadores irresponsáveis, incorrem num equívoco oposto: não levar em consideração a brevidade da vida e se tornarem muquiranas que tolhem o próprio conforto. A melhor análise de risco na vida, a mais básica, é o do fim desta.

Há algo em comum entre o aportador enragée e o minimalista. Todos pregam a frugalidade. Entretanto, percebo que essa condição de frugal é meio dourada, na maioria dos casos. É fácil se dizer minimalista morando num apê caro, mantendo um bom guarda-roupas com roupas meio caras e se preocupando com estética, não tendo muitos móveis mas decorando a casa com peças relativamente caras etc. E, claro, morando em locais bons e bem servidos em serviços. Esse é o frugal chique, o minimalista de boutique. Para mim, isso é só uma maneira de inculcar na cabeça que se é consumidor consciente, quando não o é. Na maioria dos casos, esses caras são tão minimalistas quanto eu e meus veículos beberrões. Noutros aspectos, sou mais minimalista do que eles. Minimalista, para mim, é aquele cara que vive numa casa de três cômodos, quase não tem roupas e boa parte do que come foi criada e plantada por ele. Sim: conheci e conheço gente assim.

Voltando aos livros, que até então sempre foram meu maior consumo: estou reduzindo isso. Não bem por uma filosofia. Mas porque ando cagando para as editoras. Havia escrito algo extenso sobre isso no blogue anterior e talvez republique aqui. Ando lendo bastante no Kobo (livros) e tablet (quadrinhos). Está cada vez mais raro comprar edição física. Então, neste ponto, também diminuirei o consumo.

Escrevo tudo isso porque, neste feriadão, assisti ao documentário Minimalismo: um documentário sobre as coisas importantes e constatei que é muito fácil se autointitular frugal em condições com as mostradas no vídeo. Quase todos, ali, estão cedendo a alguma condição urbana que de frugal não tem nada. Você pode não estar levando uma vida comedida dentro de seu apartamento minimalista chic. Contudo, tudo isso proporcionado por circunstâncias vizinhas que de frugais não têm nada. O frugal moderno tem o suporte de um meio urbano obeso, devorador, para poder manter essa ilusão.

Enfim... Este tema é extenso, complexo e dá pano para manga. Não vou me estender tanto aqui e apenas tracei linhas gerais de um pensamento genérico. De qualquer maneira, fica a sugestão do documentário acima, para quem se interessar pelo tema.

Abraços frugais e até a próxima.

8 comentários:

  1. Interessante sua postagem. Eu já abordei esse tema algumas vezes no meu blog. Eu me considero minimalista com algumas coisas, como roupas. Faz pelo menos um ano que eu não gasto dinheiro com isso e quando gastava era bem pouco. Minha mãe fica tão incomodada com isso que começou a me dar um monte de calçados, roupas, calças. Agora mesmo é que eu não gasto mais, tem roupas aqui para durarem anos! Eu não peço, mas ela faz questão de me dar, então que seja.

    Livro também raramente tenho gastado, procuro ebook grátis ou barato na Amazon. Só os quadrinhos que eu continuo comprando, o único hobby que mantenho atualmente. Tinha coleção de estatuetas e miniaturas, mas parei por causa da grana (e enjoei um pouco também).

    Mas cara, como assim LIMÃO?

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    1. Só limão. Segura o dia inteiro sem mau cheiro. Faça o teste.
      Já li uma postagem sua sobre a venda de uma estatueta do Iron Man. Vou procurar as outras. Mas em geral é meio isso que vc falou: minimalista numas coisas, noutras nem tanto. Acho que me encaixo aí.

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  2. Impressionante como me identifiquei com seu texto ! Não sei qual a sua idade (eu estou nos 44), mas percebo que quanto mais velho fico, vou me tornando mais pragmático e cínico (foda-se o que os outros pensam). Também tenho um filho e quase tudo que planejo, principalmente as viagens, faço pensando nele. Minha diversão hoje em dia é curtir e aprimorar o acervo de livros e gibis e curtir um bom jogo de vídeo game. Quanto ao carro, tenho o mesmo desde 2007, comprado usado e que me serve bem - me recuso a recolher os impostos extorsivos e encarar a margem de lucro absurda imposta pelas montadoras por um carro novo. Mulher virou um incômodo e o serviço profissional passa a ter a melhor relação custo/ benefício sem nenhuma dúvida ! Grande abraço !

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    1. Tenho 35 anos razoavelmente bem vividos. É curiosa a paternidade. Por mais que eu não quisesse ser pai, agora quase tudo gira em torna de minha filha. Nesse mundo cada vez mais louco e patético, tento fazer minha parte para que ela não seja como a maioria: frustrada, vitimista, só e amargurada. E faço isso com prazer!
      Sobre carros, não há para onde fugir. Nunca haverá um boicote massivo às concessionárias e às montadoras. O brasileiro compra carro caro e parece gostar disso. Se eu fosse executivo da Ford, venderia um Fiesta por cem mil reais, pois sei que teria comprador. Penso que ainda estão baratos.
      Então a opção é vc não ter carro, manter um "popular" por anos, sem muito conforto e assim dar um banana para eles, os quais estão pouco se lixando para isso.
      Como não pretendo acumular muito patrimônio para a velhice (e logo, para a morte) e ainda economizo muito com meu estilo de vida simples, então algo onde gasto um pouco mais é com carros, especialmente pela segurança. Mas, claro, o ideal seria que todos parássemos de comprar veículos no Brasil. Algo impossível...
      Abraços!

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    2. Achei seu comentário curioso, neófito. Você diz que gasta pouco, mas não pretende acumular muito para a velhice. A conta não fecha.

      Quanto a carro popular, se for comprar um para ficar anos a fio, não recomendo comprar um celta. Muito ruim! Tem pouca estabilidade, espaço interno muito pequeno. A única vantagem é que ele é pequeno e cabe em qualquer vaga e a manutenção é relativamente barata, mas é só isso. Melhor gastar um pouco a mais e comprar um gol, bom espaço interno, estabilidade e a manutenção também é razoável. Qualquer mecânico sabe consertar também.

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    3. Gasto pouco ou quase nada com algumas coisas, como vaidade estética etc. E mais com outras que me dão prazer. Eventual economia é... eventual, e não parte de um sistema de aporte regular para formar um patrimônio pensando no futuro. Até pq posso economizar meses e depois gastar bastante numa viagem de férias. Para a velhice ou doença incapacitante, pago minha previdência em 11% sobre tudo o que ganho, sem o limite do teto do regime geral. Pode dar merda no futuro? Sim. Mas no dia em que a União não tiver grana é pq tudo já estará uma grande merda.

      Nunca simpatizei com Celta. Não sou muito alto, tenho 1,82m. Mas mesmo assim me sinto apertado dentro de um Celta. Procuro sempre um pouco de conforto em carros, mesmo sendo roubado a olhos nus por montadoras e concessionárias.

      Abraços!

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  3. K,

    Vou testar o limão. Testei bicarbonato de sódio puro, mas irritava a pele.
    Adoro riachuelo pelo preço e boa durabilidade.
    Esse post foi excelente.
    E sobre relógios e celulares alguma orientação minimalista?
    Já adianto que uso um casio barato movido a energia solar.

    Abc

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    1. Não uso relógio. Não uso nenhum acessório. Para ver as horas tenho celular, carro etc. Tive um relógio quando estava no ensino médio. Depois, nunca mais. Mesmo sem celulares, há alguns anos, perguntava as horas a alguém. :-)
      Nunca tive celular caro. Uso os medianos porque réplicas e xing lings não são economia, já que trarão dor de cabeça. Duro muito com um telefone. Preciso apenas que tenha um ecrã um pouco grande porque acesso regularmente o Google Maps e uso o GPS.
      Quanto ao seu relógio, Bolsonaro é parlamentar há décadas e tb usa um desses, bem surradinho. Até pq Rolex é para sindicalistas e líderes de movimentos sociais.
      Já vi gente com problemas sérios por causa de BS. Aquilo não presta.
      Abraços!

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