sábado, 11 de março de 2017

Bitcoin e ouro



Peter Schiff, chefe executivo da Euro Pacific Capital notadamente conhecido por nunca errar a longo prazo, comentou certa vez que o bitcoin seria "ouro de tolo digital". Acho que ele não quis dizer que quem investe na criptomoeda é estúpido. Mas, talvez, que quem acredita em sua ascensão constante a longuíssimo prazo seria tolo, especialmente quando a sobrepõe até mesmo aos metais preciosos.

No dia 02 deste mês, o bitcoin bateu o ouro em preço. No Brasil, ele já vinha batendo o metal em volume de negociações há pouco tempo. Claro que, neste caso, levaram em consideração apenas os dados do mercado de futuros. O ouro que circula como mercadoria e como ativo financeiro no mercado de balcão ficou de fora do cálculo. E, convenhamos, apenas pessoas desavisadas compram ouro na BM&F. Mas, enfim: o bitcoin acima do ouro é significativo para atestar as vantagens do sistema e ao mesmo tempo também é um indicativo perigoso. Falo em perigo porque, mesmo o reconhecendo como ótima forma de reserva de patrimônio, acredito em suas limitações. Haverá uma bolha. Quando? A resposta a essa pergunta vale ouro. Ou melhor: vale bitcoins.

Dizer que o bitcoin bateu o ouro é complicado pela inexistência de parâmetros. Veja bem: são mercadorias incompatíveis. O metal é físico e sua aquisição dependeu, ao longo da história, de muito esforço (mineração e guerra, em ambas com perdas de vidas). Já bitcoin mantém hoje, como milionários, anônimos que estavam envolvidos com o sistema desde o início e que, com apenas um notebook, mineravam vários bitcoins por mês. Hoje, apenas uma grande força computacional consegue, após horas e horas de processamento e consumo de energia, um bitcoin. Então utilizaram como parâmetro o preço da onça troy do ouro (31,103 granas), a medida padrão do mercado. E, veja bem: para se obter uma onça de ouro fino é necessário minerar toneladas de rocha, muita gente envolvida no processo e um consumo enorme de energia. Ou então reciclar de outro produtos.

A grande vantagem do bitcoin sobre o ouro, em termos de investimento (sim, porque são reserva de valor e investimento ao mesmo tempo), é estar fora do sistema financeiro. Quem mantém o preço da onça troy do metal no fundo do poço é o mercado financeiro, o vendendo a descoberto há décadas. Já foi vendido mais ouro no mercado de futuros do que areia no deserto do Saara. Vendendo algo que não existe, jogam o preço para o buraco. Fazem o mesmo com prata, platina, paládio e ródio. E isso terá resultados catastróficos mais à frente, pois, além de sempre servirem como lastro para as moedas das nações, metais preciosos têm aplicações médicas e industriais relevantes.

Resumidamente: essa marca do bitcoin é notável e remunerará bem quem acreditou na “moeda” mais cedo. Hoje, contudo, não acho que haverá tanta vantagem em se investir pesado em bitcoin. Suas grandes vantagens ainda são: a) ausência de controle governamental; b) portabilidade; c) divisibilidade; d) sobretudo, transferência de recurso sem custo elevado. Nunca vi instrumento melhor para se lavar dinheiro, até hoje, do que bitcoin. Talvez diamante! Contudo, o mercado de pedras em geral é o mais anárquico do planeta e em relação a diamantes seu valor não se faz em razão apenas de quilate, mas também considera elementos como cor e corte, ficando no final das contas com um preço ao sabor de quanto pedem e de quanto estão dispostos a pagar. Assim, chegamos onde queria: os ataques do Estado contra as exchanges de bitcoins se tornarão cada vez mais corriqueiros e a tributação sobre vendas com ganho bem maior, além do fato que bancos centrais ao redor do globo já se unem para tentar gerir uma criptomoeda própria, de fácil movimentação.

Torço para que o preço da criptomoeda suba a US$ 10.000,00 até o final de 2018 e os metais preciosos despenquem. Seria interessante ouro sendo vendido a preço de cobre e, assim, gente como eu comprar ainda mais esses inúteis pedaços de metal cinza e dourado. Em cinco mil anos, estes nunca perderam uma guerra - apenas poucas batalhas. Quem souber o momento certo de sair do bitcoin, terá um ganho até então impossível em qualquer outro nicho. Contudo, acho que desde de agora, tornou-se uma aquisição de grande risco, podendo aumentar subitamente de valor a qualquer momento até como cair sem aviso prévio.

Todo o ouro extraído do planeta, se fundido numa gigantesca barra, teria em torno de 20m³. Não é muito. Eu poderia depositá-la em meu quintal, dependendo do formato (tenho um quintal enorme, onde planto árvores e crio galinhas). E acesso a novos veios do metal está cada vez mais difícil, pois o investimento é enorme e a legislação ambiental dificulta a mineração. Basicamente, só podemos reciclar o metal existente, sendo que mais de 10% é consumido anualmente em atividade industrial e, francamente, nunca iremos reciclar cada chip do mundo.

Veja bem. O ouro é consumido enquanto mercadoria. Ele não funciona apenas como ativo. Assim, acreditar que o bitcoin baterá o ouro a longo prazo é meio pueril. O bitcoin é uma mercadoria sem aplicação alguma a não ser alocação de recursos, hedge e ótimo instrumento, por enquanto, para esconder receitas e migrá-las. O ouro se tornará cada vez mais escasso. A prata, então, nem se fala. A quantidade de bitcoin será imutável após toda a mineração ou, talvez, continue até crescendo - sim, acho isso possível. Nossas reservas de metais preciosos são reduzidas a cada ano. Pense nisso.

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