sexta-feira, 3 de março de 2017

A Turma da Mônica atual é ruim? [ Considerações ] [ Republicação de postagem do Blog do Neófito ]


Imagem de minha coleção.
Já comentei sobre as caixas da Coleção Histórica Turma da Mônica, anteriormente. A distribuição é feita em bancas e livrarias [ UPDATE: a publicação acabou ]. A Panini, sem dúvidas, sabe como vender bem seus produtos. Cada pacote vem com cinco quadrinhos e uma caixa para montar e guardá-los. No início, o box já vinha com as revistas dentro, mas muitos consumidores se queixavam que, nos pontos de venda, quase tudo chegava amarrotado. Felizmente, tiveram o bom senso de mudar isso. Cada box custa em torno de R$ 20,00. Acho um bom preço, considerando o box de qualidade para acondicionar tudo e o tratamento de cada gibi, que possui as capas elaboradas com cuchê de gramatura maior que as de linha convencional. Além do aspecto externo (acabamento etc.) o conteúdo é muito bom. Estamos falando das primeiras edições da Turma, onde havia inovações na arte e os limites para os roteiros eram apenas o bom senso.

Abaixo, podemos conferir como a arte era diferente e como cada artista podia dar sua marca à história. Aliás, entre as melhores tramas sempre encontramos as escritas e desenhadas pelo próprio Maurício. Este cara merece o título de gênio. Maurício de Sousa é um grande artista, sabendo elaborar HQs e desenhar como poucos do ramos. Além, claro, de ser um grande empresário, lançando sua criação às alturas, franqueado dezenas (ou centenas?) de produtos. Sou fã do cara, não nego. Entretanto, acho uma pena os rumos que a MSP vem tomando em alguns aspectos.

A antológica Chuva na Roça.
Nas páginas da Coleção Histórica, há a seção "Arquivos do Maurício", onde o roteirista Paulo Back comenta cada revista: momento da publicação, nomes de alguns escritores e desenhistas etc. São textos bacanas. E, nestes arquivos, em praticamente cada página, está lá o cara informando que isso ou aquilo não é mais possível nas publicações atuais em razão de não ser "politicamente correto". Enfim, retiraram a maior qualidade da Turma da Mônica apenas em razão de bobagens que alguns consideram "inadequadas". Isso é curioso. Numa época onde crianças trepam nas escolas e filmam tudo no celular para postar na internet, uma simples história do Chico Bento atiçando colmeia de abelhas para pegar mel é taxada como "imprópria". Enquanto guris saem por aí torturando física e emocionalmente os coleguinhas, cometendo até assassinatos de animais domésticos e humanos, é um "grande absurdo" que as crianças do Limoeiro brinquem com armas de brinquedo. Na boa, véio, quanta bobagem. Não é à toa que o público antigo da Turma está evitando comprar algo novo.

Acerca de armas, um aparte. Cresci com armas de brinquedo e vendo meu pai às vezes armado (por necessidade profissional). Era muito legal brincar com revólveres à espoleta que soltavam bolinhas de plástico (até doía à queima roupa). Lembro quando ganhamos (eu e meu irmão) os revólveres do Rambo. Recordo das espadas de plástico que tínhamos, em especial as do He-Man. E brincávamos de dar porrada com elas. Além disso, tínhamos canivetes suíços falsificados. Minha mãe comprou para nós. Resumo da história: nunca houve história de violência grave na minha rua, entre meus amigos, nem na escola (com raríssimas exceções). Meu irmão cresceu bem da cuca e hoje é casado e pai, sendo Professor Titular numa Universidade Federal. Eu cresci até "normal" e pago minhas contas honestamente, trabalhando sem apontar arma para ninguém. Por outro lado, uma penca de garotos que crescem neste "politicamente correto" são aloprados, violentos, totalmente zoados da cabeça. Daí, imaginem a conclusão que tiro de tudo.

Voltando ao assunto. Em um dos extras (Magali, CH n.º 23, p. 15), Paulo Back chega a nos dizer que nem mesmo a palavra "azar" é mais utilizada nas publicações. Em seu lugar, deve-se optar por "má sorte". E aí, entenderam essa? Nem eu. Isso não passa de bobagem (para mim). Na CH Chico Bento n.º 31, há uma ótima história sobre perda. A casa do caipira (ou será um galpão do sítio?) foi tomada pelo fogo e, em razão de diversas trapalhadas, não conseguiram apagar a tempo. Comentando esta história, nos diz Paulo Back: "Finais assim agora são evitados. A preferência é que os desfechos sejam engraçados ou deixem algum ensinamento". Não há ensinamento na perda, ora? Na primeira história desse mesmo número, Chico Bento protagoniza uma trama bastante divertida, onde adormece dentro dum troco de árvore para fugir de uma onça e, assim, acaba indo parar na fábrica de móveis e, mais à frente, dentro da própria mobília de um casal da cidade grande. Uma história divertidíssima. No entanto, nos comentários, Paulo Back ressalta: "O roteiro usa o truque do Chico Bento dormir enquanto a aventura acontece, algo que não é mais usado, por ser irreal demais". Será que os Estúdios do Maurício já notaram que, em seus gibis, um elefante verde fala, enquanto uma tanajura flerta com ele? E por posicionamentos como esse o público maduro das publicação MSP vem caindo. Recordo colocação de Alan Moore, onde afirma que o escritor move-se na ficção, não na mentira; assim, é preciso que o leitor encontre ressonância emocional no que lê, mesmo no gênero mais fantasioso. Enfim, as HQs de outrora da Turma da Mônica possuíam essa ressonância emocional, mesmo nas histórias mais irreais, mais nonsenses. Hoje, estão insossas, sem graça, justamente por querer manter "o pé no chão".

Não digo que todas as publicações MSP atuais são ruins. Eu mesmo compro algumas, em especial as do Chico Bento, meu personagem predileto. Também gosto de Clássicos do Cinema (bimestral). Mas deixam muito a desejar em relação às publicações antigas. Às vezes, parece que estamos lendo quadrinhos não para crianças, mas para pessoas com oligofrenia, com séria dificuldade em compreender algo e, por isso, necessitam de algo muito simples para seu entretenimento. Sem dúvidas, os desafios dos Estúdios Maurício de Sousa são grandes. Devem conquistar novos leitores com bom senso, mas não podem perder uma parcela significativa de consumidores mais maduros, que - em regra - têm aversão às diretrizes atuais que os editores da Turma, infelizmente, insistem em manter.

Está fácil imaginar o dia onde, nos quadrinhos, Magali não será gulosa, Mônica não baterá mais em ninguém, pois o bullying contra ela acabará, Cebolinha dará aula de dicção e Cascão tomará, no mínimo, dois banhos ao dia, dando lições de higiene. Isso na existe na Turma Jovem (mais ou menos). Só acho que, em breve, será assim na Turma tradicional. E, então, era uma vez um quadrinho muito bacana, chamado Turma da Mônica.

Abraço a todos,

Kleiton Gonçalves

Imagem de minha coleção.

Um comentário:

  1. Acho que não é uma questão de politicamente correto, mas sim de moralismo. Imagina o que deputados como Bolsonaro fariam se vissem as histórias em que o Cascão se vestia de mulher pra ajudar o Cebolinha, por exemplo? "Ideologia de gênero" e blablablah. O politicamente correto só impede que não façam piada com mulher, negro e LGBT por serem quem são, e isso eu apoio TOTALMENTE. Já o moralismo vê todas as crianças como retardadas.

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