sábado, 18 de fevereiro de 2017

Sob a redoma [ romance monumental de Stephen King ]



Sob a Redoma, todo o tipo de coisa seria possível. (p. 488)
Viver debaixo da Redoma intensificava tudo. (p. 805)

Nunca escrevi realmente "resenhas" de livros, filmes ou HQs aqui. Não no sentido acadêmico. Acho que só dei pitacos sobre obras com as quais tive acesso e expus alguns comentários a respeito, sempre aproveitando para recomendar - ou não - algum notável objeto de erudição ou da dita cultura pop cada vez mais empobrecida. Às vezes, contudo, esses comentários saem longos demais e, creio, pouca gente se interessa por longos textos. Eu escreveria mais acerca de Sob A Redoma, romance quase fresquinho de King (ano de 2009). No entanto, é um baita calhamaço com mais de 950 páginas em fonte pequena (malditas letrinhas!). Assim, farei apenas uns apontamentos, abaixo.

Tive o primeiro contato com Sob A Redoma pela televisão, sem muito compromisso. Às vezes, deixava a TV ligada e, na Globo, vi esparsamente uns episódios do seriado. Achei a premissa (meio clichê) até interessante na ocasião, mas notei que, logo, o troço degringolou. Além disso, a adaptação - como era de se esperar - ficou meio boba. Deixei logo de lado. Mas, como vi ótimas críticas ao romance, topei lê-lo, pois queria ter mais contato com a obra de Stephen King. E que livro, coleguinhas! Enquanto a TV nos dá algo meio água com açúcar, a obra escrita não reserva espaço para fofura ou meiguice. As descrições sobre o estado espiritual de algumas personagens conseguem nos fazer pensar sobre a manutenção da fé em momentos de dificuldades, por exemplo. Além disso, os aspectos mais sombrios da pequena Chester's Mill não possuem floreios. Há espaço para o consumo exagerado de drogas (legais ou não), sexo descompromissado em todas as suas formas (inclusive necrofilia praticada em despensa para alimento), além de loucura e paranoia extrema. Os assassinatos ocorridos são bestiais e sujos, não "limpos" com tiros de pistola sem muito sangue, como na TV. E, claro, os suicídios são esperados e, quando ocorrem, dramáticos.

Diferentemente da adaptação televisiva, por exemplo, James Rennie - o segundo Vereador de Mill que domina a cidade com mãos de ferro, corrupção e até tráfico de drogas - não consegue nos despertar nenhum momento sequer de empatia. Além de ter encurtado a vida da esposa cancerosa com um travesseiro, chega a refletir, sobre o filho:
Big Jim estava sentado ao lado do leito do filho (...). De certa forma, Big Jim sabia que seria melhor se Junior morresse; vivo e com um tumor pressionando o cérebro, não havia como saber o que faria ou diria. É claro que o garoto era sangue do seu sangue, mas havia o bem maior em que pensar: o bem da cidade. Um dos travesseiros do armário provavelmente serviria...
O humor negro está presente, como sempre o esperamos em King. Desde quando narra alguma banalidade (mero impulso da história) até quando aborda temas mais sérios de nossa existência, como no exemplo abaixo, onde cita um pouco do cotidiano de Clayton, antigo habitante da cidadela:
A senilidade começou a se instalar pouco depois do centésimo aniversário; em 21 de outubro passado, ele fez 105 anos. Já havia sido marceneiro especializado em sancas, armários e balaústres. Nesses últimos dias, as suas especialidades eram comer gelatina sem enfiá-la no nariz e às vezes conseguir chegar ao banheiro para soltar na privada meia dúzia de pelotas manchadas de sangue.
Stephen King é mais do que humano a nos mostrar um pouco do sofrimento da porra-louca Samantha Bushey, mãe do bebê batizado de Pequeno Walter. A garota só quer ser uma boa mãe solteira, namorar suas "amigas" e dar um beque no bom estoque de erva que mantém guardado. Mas nem isso é possível em seu afastado trailer. É com ela que ocorre o estupro coletivo praticado pela nova força policial de Mill, sob a "liderança" de Georgia Roux. Em apenas três dias de confinamento, quase tudo já é possível.
- Vai pro sofá. E abre as pernas. (...)  
- Vai contar isso pra alguém, Sammy? 
 - N-N-Não.(...)  
- É bom que seja assim. Porque ninguém vai mesmo acreditar em você. A não ser nós, é claro, e aí nós vamos ter que voltar e foder de verdade com você. Frankie a empurrou para o sofá.  
- Fode ela - disse Georgia, excitada, jogando a luz sobre Sammy.Fode essa piranha.  
Os três rapazes a foderam. Frankie foi o primeiro, sussurando "Você tem que aprender a ficar de boca fechada a não ser quando estiver de joelhos" enquanto metia nela. Carter foi o seguinte. Enquanto a cavalgava, o Pequeno Walter acordou e começou a gritar.  
- Cala a boca, garoto, vou ter que ler seus direitos! - berrou Mel Searles, e depois riu.  
Niuc-niuc-niuc.
A "Fé" está bem explorada nos personagens líderes religiosos locais, de duas igrejas distintas: Reverendo Lester Coggins, que explode num colapso paranoico, ao acreditar que o domo é fruto dos pecados perpetrados por ele e seus parceiros de crime, especialmente o chefão da cidade, Jim Rennie. Juntos, eles enriqueceram fabricando metanfetamina nos fundos do Templo e dilapidando o erário municipal. E na simpática Reverenda Piper Libby, que perdera marido e filhos há pouco tempo e, agora, vai-se desprendendo da fé quando se vê aprisionada pela cúpula invisível. As conversas com o Senhor chegam quase a nos reconfortar, enquanto "meros leitores" dos dramas alheios, como nos trechos abaixo, onde a viúva do Chefe de Polícia Duke reza logo após perder o marido com a explosão do marcapasso em seu peito.
Deus, aqui é Brenda. Não quero ele de volta... quer dizer, querer eu quero, mas sei que o Senhor não pode fazer isso. Só me dê forças pra aguentar, ok? E eu queria saber se... Se o Senhor deixaria ele falar comigo mais uma vez. Talvez me tocar mais um vez, como hoje de manhã. (...) 
Eu sei. O Senhor não lida com espíritos, só com o Espírito Santo, é claro, mas quem sabe num sonho? Sei que é pedir muito, mas... Ah, Senhor, tenho um buraco tão grande dentro de mim agora. Não sabia que as pessoas podiam ter buracos assim e tenho medo de cair lá dentro. Se o Senhor fizer isso por mim, faço qualquer coisa pelo Senhor. O Senhor só precisa pedir. Por favor, Senhor. Só um toque. Ou uma palavra. Mesmo que seja num sonho.
Essencialmente, Sob A Redomaé uma romance que busca mostrar o ser humano cru, cruel, bondoso, arrogante e medroso. É difícil para a telinha mostrar a alma de uma personagem. Acho que apenas a história escrita, com suas nuances e pausas para a introspecção, além do que o autor despeja pelas entrelinhas, consegue bem isso. A fórmula de King foi aparentemente simples, utilizando o clichê de "vamos confinar algumas pessoas por sete dias e com poucas esperanças", o restante fica sempre por conta do Diabo solto no terreiro. Só que o escritor foi feliz em cada página, tendo de clichê, mesmo, apenas a premissa de confinamento na velha escola de O Senhor das Moscas.

Admiro a narrativa dos autores americanos. Acho que pouca gente é tão boa para contar histórias quanto eles. A grande quantidade de prêmios Nobel de Literatura indicam isso, penso. Talvez a isso (e à grana farta) deva-se o sucesso de suas produções televisivas e cinematográficas em todo o mundo. A narrativa de S. King é dinâmica. Mas o autor também se esforça para ser dinâmico, para se atualizar e, assim, situar seus leitores no tempo. No romance, por exemplo, encontramos referências atuais que vão do sucesso dos produtos Apple, passando pelo seriado Lost e gibis de Brian K. Vaughan. Não nos sentimos deslocados em momento algum. É fácil, assim, "entrar" na história e criar empatias com vários personagens.

O final do romance não agradou a alguns leitores. A explicação sobre a origem e função da Redoma utilizou uma ideia simples e, de certa forma, uma pegada até meio batida na ficção científica. Entretanto, achei um bom final. Além disso, deu um significado sintetizador à obra: talvez a vida humana seja, realmente, um sopro de insignificância neste vasto Cosmo. E crianças traquinas podem ser bem perigosas... (ops, sem spoilers!).

Comprei a edição brasileira com tradução de Maria Beatriz de Medina. Mas, para quem gosta de ler arquivos digitais e está pouco se importando com o retorno financeiro do autor e de nossas editoras, vi que há opções para download gratuito da obra. Aliás, esses trabalhos "amadores" de digitalização de obras escritas estão cada vez melhores. Deem uma conferida no Wattpad, por exemplo. Seja qual for a plataforma, recomendo a leitura deste romance. É muito bom! Além disso, não costumo criticar quem apenas lê obras em formato digital, adquiridas gratuitamente. Não faço isso porque gosto do livro enquanto objeto. Preciso do papel impresso! Mas às vezes somos meio que feitos de trouxas por editoras nacionais. Me pergunto se ao menos livros tão robustos não mereceriam volumes encadernados, segurando bem melhor o miolo. enquanto edições gringas possuem versão capa dura com sobrecapa, temos que engolir brochuras fracas e com certas cagadas editorais. Afinal, porque estragar a capa com uma recomendação em letras graúdas do New York Times?

Enfim, fico por aqui. Gostei muito deste romance e só posso mesmo indicá-lo para quem quiser empreender bem algumas horas da semana, com a leitura de uma trama bem construída e que nos deixa instigados a cada virada de página.

Abraços assombrados e até a próxima.



Imagem de meu tijolão.

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