segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

O Jardim do Diabo de Luís Fernando Veríssimo



A epígrafe escolhida por Luís Fernando Veríssimo para seu romance não foi à toa:
Embora vigies, a morte conspira nas entrelinhas”, Alcides Buss em Segunda Pessoa.


O Jardim do Diabo é o primeiro romance publicado por Veríssimo, em 1988, pela L&PM. Mestre do conto curto, curtíssimo, fast-food e da crônica (sabe-se lá qual a distinção entre ambos os gêneros), o pontapé do gaúcho nesta empreitada foi bem sucedido.

Na trama, o perneta Estevão escreve romances vagabundos distribuídos em bancas de revista. Aquelas brochuras em formato pequeno e papel jornal destinadas a entreter donas de casas e sonhadoras, numa época que ficou perdida. Um dia, ele recebe a visita de outro perneta: Macieira, inspetor de polícia. Estão havendo crimes estranhos na Cidade, possivelmente inspirados no livro Ritual Macabro, o mais recente best-seller de banca de jornal escrito por Estevão. Durante a história que nos é narrada por este escritor de quinta, Macieira o visita esporadicamente, trazendo notícias acerca de novos crimes macabros. Enquanto isso, Estevão relembra momentos importantes – e traumáticos – de sua vida na juventude e escreve a continuação de Ritual Macabro, onde o herói Conrad enfrentará, pela última vez, O Grego, seu grande oponente. Durante a escrita do romance, Conrad descobre mais acerca das pessoas que o cercam, bem como acerca de si mesmo. Durante as recordações de Estevão, este desenvolve uma jornada de autoconhecimento, repaginando fatos do passado. Durante os dias em que escreve e que recebe Macieira em seu apartamento, Estevão descobre mais sobre as pessoas à sua volta, sobre sua família e assuntos obscuros que se desenvolveram em torno de seu pai.

A sacada de Veríssimo foi misturar tudo: vida real e ficção. A história de Conrad mistura-se com a de Estevão dentro de um mesmo parágrafo, dentro de um mesmo período. E o final – confesso que achei um pouco previsível, assim que li sobre os detalhes físicos da amante do pai do protagonista –  não deixa brechas para conspirações mirabolantes e crimes sensacionalistas tipo “a vida imita a arte”. Tudo é explicado da maneira mais simples: a maneira mais simples, ora (!). É um bom livro. Ainda mais pela característica de que você tem dois romances em um: a história da vida de Estevão e a história da história escrita por este para seu espião internacional: Conrad.

Como sempre, Veríssimo usa de elementos da literatura dita erudita (ou séria?) para tecer suas tramas bem humoradas. Há algumas referências a Moby Dick de Hermam Melville, por exemplo. Já no primeiro parágrafo do livro, o protagonista assim se apresenta: “Me chame de Ismael e eu não atenderei. Meu nome é Estevão”. Destaco que a primeira linha de Moby Dick é uma das passagens mais famosas da Literatura: “Chamai-me de Ismael”. Quanto ao título do livro, encontramos diversas indicações a jardins: Jardim Paraíso, Jardim Leste, os três jardins do casarão onde cresceu o protagonista e uma citação do padre José: “A mente ociosa é o Jardim do Diabo”.

O livro segue o formato usual da coleção Veríssimo pela editora Objetiva: brochura com orelhas, papel branquinho e fonte e margens generosas. Na capa, um dos bonecos esculpidos pelo competente designer Ricardo Leite. São aproximadamente 180 páginas de bom humor inteligente.


Livros e quadrinhos de Luís Fernando Veríssimo por kleiton-alves

Um comentário:

  1. Cara, acho que tem algum problema no seu feed RSS, faz 3 dias que o seu blog não aparece atualizado no meu blogroll.

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