sábado, 18 de fevereiro de 2017

O Iluminado por Stephen King e Stanley Kubrick [ do livro às telas ]


Imagem de meus exemplares.

O hotel apossou-se dele, Danny.
O Overlook apossou-se de seu pai.

A resenha a seguir procura abordar um pouco da relação entre o romance O Iluminado e a adaptação homônima dirigida e co-roteirizada por Stanley Kubrick. Assim, revelações sobre os enredos das duas obras são necessárias.

Estava em débito com Stephen King há anos. Faz tempo que pretendo ler vários de seus romances, mas sempre adiava isso.  Então, recentemente, comecei a retirar o atraso. E comecei isso por O Iluminado, um de seus livros mais representativos, creio; não apenas por seu enredo de elevado nível estético e narrativa dinâmica e instigante, mas, também, pela adaptação bem sucedida para o cinema realizada por Stanley Kubrick em 1980. Também há uma adaptação de 1997, exibida na TV no formato de minissérie, extremamente fiel ao romance. Só que a adaptação de Kubrick sempre me seduziu, mesmo com bastantes alterações em relação à obra original e com a supressão de vários elementos, inclusive até importantes. É que, em termos de “adaptação”, Kubrick não cometeu deslizes. Ele isolou os principais aspectos da obra escrita, enxugou o que, nas telas, não precisa ser dito ou que poderia ser imaginado pelo público, e nos deu um suspense ambíguo de primeira linha. E não há como remover de nossas cabeças, enquanto lemos o romance, que Jack Nicholson e Shelley Duvall são o casal Torrence. Todavia, como nem Jesus Cristo agradou a todos, a adaptação de Kubrick possui críticos ferrenhos, especialmente o próprio Stephen King.

Na trama, a família Torrance (Jack, Wendy e o pequeno Danny) viajam ao Colorado, onde permanecerão isolados durante um rigoroso inverno, no imponente hotel de veraneio Overlook.  Em razão das nevascas e impossibilidade de acesso pelas estradas nas montanhas, é inviável manter o hotel funcionando durante a neve intensa. Mesmo assim, é preciso mantê-lo sob cuidados regulares, especialmente em relação ao aquecimento de várias alas de forma alternada, economizando energia e gás com o uso da gigantesca caldeira, evitando a depreciação causada pelo mau tempo. Reparos regulares também precisam ser realizados. Para isso, Jack é contratado.


Danny é um garoto introspectivo, crescendo sob a tensão de um lar que sobrevive sob risco de desmoronamento. Ele possui um amigo imaginário (Tony) e já surpreendera os pais com o aparente dom de prever o futuro ou descobrir detalhes de eventos com os quais não teve contato. Em seu primeiro dia no hotel Overlook, conhece o chefe de cozinha Dick Hallorann. E ele estabelece um contato psíquico com o garoto e se refere a ambos como "iluminados", pessoas com uma maior sensibilidade. É interessante que, na obra escrita, a ideia de "iluminado"é ampla, de acordo com o "nigger cook":

Uma porção de gente tem um pouquinho dessa luz interior. Não sabem, mas sempre aparecem com flores quando as esposas estão se sentindo pra baixo durante as regras, fazem boas provas na escola sem sequer terem estudado, têm uma boa ideia de como as pessoas estão se sentindo logo ao entrar numa sala. Já toquei com uns cinquenta ou sessenta sujeitos assim. Mas talvez só uma dúzia deles, contando a minha avó, sabiam que era iluminados.
Hallorann avalia a família Torrance e conclui que Jack é uma figura obscura. Ele não sabe dizer se o pai do garoto possui alguma forma de iluminação, sentindo apenas que ele guardava algo tão profundamente dentro de si que era impossível alcançar. E, lendo o obra, descobri que o título não se refere apenas à criança; Jack Torrance também lhe faz jus. Contudo, creio, sua "iluminação" foi soterrada pela infância sob o julgo de um pai difícil, uma mãe espiritualmente ausente e uma vida madura sombria, onde o único refúgio era a bebida. 

A iluminação é o ponto chave, aliás, da razão de o Overlook desejar Danie. O talento dele será útil. Wendy chega a cogitar que, usando seu filho como "bateria", o hotel teria forças para deixar de ser mais do que "uma casa mal-assombrada de um parque de diversões". Se o Overlook absorvesse Danny, seu poder seria realmente perigoso a todos, independentemente da suscetibilidade de alguém. E o espectro de Grady trata disso com Jack: "Seu filho tem muito talento, do tipo que o gerente poderia utilizar para posteriormente melhorar o Overlook". Esse "gerente" não é bem explicado na trama. A princípio, seria o próprio hotel. Este é o grande vilão. Ele tem a força de repetidos atos de violência que reverberaram desde sua edificação. Ou então, creio, seria oriundo de uma entidade ali existente há eras que se alimentou de repetidas tragédias e, assim, conseguiu perdurar. De qualquer forma, o Overlook possui uma auto-preservação, uma necessidade em manter -se em pé e de recompensar quem zela por seu bom funcionamento. Sem as paredes erguidas, o espaço vazio seria um grande nada. Acredito que toda a energia negativa existente ali precisasse do espaço físico edificado para contê-la, para mantê-la unida. E o final do livro parece nos indicar isso.

Considero que as melhores adaptações cinematográficas são aquelas que não tentam aprofundar-se na obra primeva.  A tentativa de representar um romance longo nas telas, especialmente com remissão a seus elementos mais introspectivos, fatalmente nos dão algo insosso, difícil de ser tragado. Por isso, quando me deparo com uma película adaptada com sucesso para o cinema, procuro contato com o livro. Assim, minha fruição intelectual é mais ampla: aproveitamento estético do filme e aprofundamento introspectivo da história escrita. Já falei um pouco sobre isso quando resenhei Fome de Viver e Coração Satânico.


Conquanto no cinema fiquemos um pouco em dúvida acerca do que realmente se passa no Overlook (se se tratam de eventos puramente psíquicos, individuais e coletivos, ou sobrenaturais), no livro, após a terceira parte, acreditamos que, realmente, o hotel guarda segredos além da compreensão material. Mas King ainda nos deixa constantemente em dúvida, procurando espalhar eventos ambíguos durante a narrativa. Assim é, por exemplo, quando, no primeiro contato entre Jack e o barman Lloyd, afirma que tudo ali seria imaginário, especialmente os martínis servidos. É uma forma do escritor nos enganar, enquanto nos faz pensar que tudo fosse imaginação ao nos afirmar isso por meio de um ainda cético Jack Torrance, que, no decorrer da história, torna-se cada vez mais ávido em conhecer a história do hotel, especialmente por meio de um álbum encontrado no depósito. Mais à frente, descobrimos que este recorte de informações foi elaborado pelo próprio Overlook enquanto entidade, como forma de seduzir e instigar Jack para seus desígnios.


O filme possui construções icônicas que não existem no livro, como: a) o grande labirinto de grama; b) o machado que Jack utiliza para matar Halloran e ameaçar sua família; c) as filhas de Grady como gêmeas, que aparecem para Danny; d) citações como “muito trabalho e pouca diversão fazem de Jack um bobãoou “here's johnny. E o cinema deixou de aproveitar pontos interessantes, a exemplo dos animais feitos em topiaria e sua natureza mística, o parque infantil e sua lenda de tragédia; e, claro, um pouco sobre a longa e sombria história do Overlook, suas várias falências, ocupação por gangsteres e utilização para as mais escusas transações financeiras. O passado de Jack também é relevante para conhecê-lo melhor. No romance, descobrimos que sua aspiração a escritor vem de longa data, inclusive com contos publicados em revistas de prestígio. Antes de se  habilitar à vaga de zelador do hotel, era professor numa boa escola preparatória. Contudo, seu temperamento explosivo ao lado da luta contra o alcoolismo fez com que agredisse seriamente um aluno que, por justificado ódio, lhe furou os pneus do carro. Tal aluno chamava-se George Hartfield e sua presença adquiriu uma força significativa na conduta ulterior de Torrance.

Muita gente encontra várias referências ocultas na produção de Kubrick, inclusive mensagens de "alfinetadas" em King. Sou meio cético quanto a essas teorias um pouco mirabolantes. Acho que, por ler muito Umberto Eco, passei a meditar que, quando se quer, é possível até encontrar pentelho nascendo em ovo de galinha. Mas, para os interessados nessas teorias, há documentário a respeito: Room 237, de 2012.


A edição  do romance que possuo é especial. Especialíssima por uma razão íntima, a qual não vale a pena entrar em detalhes, aqui. Trata-se da tradução de Betty Ramos de Albuquerque para o selo Suma de Letras (Objetiva). A brochura possui orelhas e parece resistente em manter suas 466 páginas no lugar. O papel é bom: amarelado, o que não cansa a visão, com fonte generosa e direito a um pouco de margem sobrando.


A narração de O Iluminadoé interessante. Além do passado de alguns personagens e do próprio hotel ser revelado em flash back sem cansar a dinâmica da leitura, o romance é estruturado em "tempos" (por assim dizer) de cada personagem. Assim, por exemplo, enquanto vemos um evento pela ótica e pelo tempo de Jack, nos deparamos, no outro capítulo, não com a continuidade da trama, mas com uma narração dentro do mesmo tempo que o capítulo anterior, só que desta vez por outro personagem. E Stephen King utiliza esse recurso simples com inteligência e sem fadigar o leitor. Não é à toa que ele vende muitos livros! E o autor sempre fez questão de divulgar suas principais inspirações (cinema, literatura, seriados etc.). Em O Iluminado, é citado explicitamente o cultuado romance de Shirley Jackson: A Assombração da Casa da Colina. Achei isso bacana.


O final do livro é radicalmente oposto à trama do filme de Kubrick. Enquanto, na tela, Dick Hallorann morre estupidamente logo ao adentrar no saguão para salvar Danny e Wendy, no livro seu papel é extremamente relevante e ele ainda protagoniza um bonito epílogo. Mas, claro, não darei mais pistas por aqui.


Há pouco tempo, Stephen King escreveu uma espécie de continuação a esta obra. Chama-se Doutor Sono e aborda a vida madura de Dan. O que houve com o garotinho sofredor que enfrentou o capiroto nas montanhas do Colorado? King nos conta. Parece oportunista escrever uma "continuação" para um romance tão bom? Mas não é. Ainda não li a obra. Só que a maioria esmagadora da crítica é unânime: vale a pena. Acho que, mais à frente, também darei uma chance a Doutor Sono.


Abaixo, selecionei uns trechos legais do filme de 1980, além de diversas imagens garimpadas na internet com momentos dos bastidores da produção, especialmente com o entrosamento entre o carrancudo Stanley Kubrick e o afável Jack Nicholson, dois ícones que dispensam muitas palavras.





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