domingo, 19 de fevereiro de 2017

O espião que sabia demais: do livro à tela


Imagem de meu exemplar.

James Bond, Ethan Hunt ou Jason Bourne? Nenhum desses encontra respaldo nas tramas de John Le Carré. Inteligência - enquanto atividade de análise de dados, pessoas, circunstâncias e produção de boa e má informação - é algo chato, extremamente  enfadonho, burocrático e que não remunera seus Oficias à altura, além de poder matá-los ao menor descuido e pelas mais irrelevantes razões. No mundo da espionagem, dificilmente você encontrará mulheres fatais e misteriosas – além de serem verdadeiras top models – pela frente, no seu encalço. E quanto às aventuras recheadas de adrenalinas? Elas não existem. Nem mesmo uma modesta perseguição de carros numa autoestrada ou numa elegante cidade europeia. E mais: tudo é confuso. Nada – absolutamente nada – é claro. Você pode gastar anos de sua vida funcional caçando fantasmas, dando socos no ar, contando orvalho. O resultado de muito esforço pode ser ínfimo ou, apenas, gerar mais dúvidas e incertezas do que antes. É mais ou menos isso que o ótimo filme O Espião que Sabia Demais, baseado no romance homônimo de Le Carré, nos diz. Penso que toda a história pode ser sintetizada na boa colocação do espião George Smiley (interpretado soberbamente por Gary Oldman), quando recordando seu encontro com um emblemático agente soviético conhecido por Karla: “Nós não somos tão diferentes, você e eu. Ambos passamos nossas vidas procurando as fraquezas um do outro. Não acha que chegou a hora de perceber que o seu lado e o meu estavam errados?”. Sem dúvidas, um grande momento do cinema.

Fisicamente, Gary Oldman é bem diferente do personagem construído por Le Carré. Este descreve o spymaster da seguinte forma: "De baixa estatura, atarracado e, na melhor das hipóteses, já de meia idade, tinha a aparência de um londrino acomodado, desses que não herdam a Terra. Suas pernas eram curtas, seu jeito de andar seria tudo, menos ágil; suas roupas eram caras, mas assentavam-lhe mal (...)". Além desse péssimo quadro estético, Smiley é um tremendo corno manso, sempre ansioso pelo retorno da esposa Ann, que o chifrava com o Diabo e o mundo, além de ser amante regular de Bill Haydon - primo dela e colega dele no Circus (unidade do Serviço de Inteligência britânico).

Podemos resumir essa trama de espionagem "noir" e pacata da seguinte forma: após o fracasso da Operação Testemunho, na República Theca, que pretendia obter de uma forte militar informações sobre a existência de um traidor no seio do Circus, tanto Smiley quanto Control - seu Chefe - são convidados a aposentar-se. Passado pouco mais de um ano e com Control já falecido, o político Lacon procura Smiley com a informação da existência, realmente, de uma "toupeira"; assim, extraoficialmente, ele passa a analisar várias ações do Circus, em especial na operação mencionada, além de outra denominada "Bruxaria", no afã de descobrir que é o agente britânico recrutado por Karla.

No romance, Le Carré soterra toda a trama em um labirinto de informações despejadas ao léu. Acompanhamos Smiley e seus colaboradores num vai e vem aparentemente inútil, sem chegarmos à conclusão satisfatória alguma. Apenas nos quatro últimos capítulos da obra o gênio do velho espião começa a amarrar todas as pontas, formando um quadro, para nós, mais nítido. A toupeira é descoberta e o Circus começa a ser reorganizado.

Em razão do ano de seu lançamento original (1974), a sugestão à relação "gay" entre os espiões Bill Haydon e Jim Prideaux chama atenção. Na adaptação cinematográfica, ademais, levaram o homossexualismo a outro personagem, de forma desnecessária. Assim, no filme, vemos uma suave indicação de que Peter Guillam manteria uma relação homoafetiva; conquanto, na obra escrita, ele seja heterossexual e conviva com sua namorada, Camila. Por que essa insistência da mídia atual em torna tudo mais gay, hein?

O título original da obra (Tinker, tailor, soldier, spy, ou seja: Desajeitado, alfaiate, soldado, espião) evoca versos infantis conhecidos na cultura anglófona, escolhidos por Control, quando vivo, como código de identificação dos espiões do Serviço de Inteligência, especialmente para a Operação Testemunho. No filme, não vemos demais explicações sobre esses versos, apenas menção aos seus personagens logo nas cenas iniciais. E essa falta de mais informações, por parte do diretor sueco Tomas Alfredson é a razão da péssima recepção do filme pelo grande público que desconhece o livro. Aliada a essa ausência de informações importantes, a péssima edição do filme - justamente sobre uma história, em si, já confusa - só agravou tudo. Esse excesso de supressão, aliás, também é verificado em seu filme anterior: Deixe-a Entrar, que abandona os espectadores à própria sorte, para encontrarem, no romance escrito ou em notas na internet, elementos essenciais à trama.

É impossível, apenas pelo filme, compreender a linha de raciocínio desenvolvida por George, bem como a compreensão de como se dava, efetivamente, a infiltração de agente duplo na unidade, durante uma aparente vantajosa troca de informações com provável fonte russa. No romance, apenas a partir do Capítulo 34 tais informações são reveladas, dando amarração a tudo o que fomos colhendo durante a leitura. No cinema, esses elementos não existem. Não podemos desmerecer, claro, a excelente qualidade técnica da produção e sua força em nos levar àquela atmosfera de espionagem. As atuações são excelentes, no elenco de peso que possui. A fotografia está impecável (v. imagens abaixo). Com um pouco de esforço durante o filme, bem como após umas consultas na internet, dá para compreendê-lo bem. Enfim, uma película exigente. O livro, por seu turno, é altamente recomendável: história empolgante e bem contata, boa tradução e tratamento decente por parte da Editora Record. A capa do livro (acima) reproduz o pôster do cinema em tudo, inclusive nos créditos reproduzidos nas costas do volume - prática esta cada vez mais comum em publicações adaptadas para as telas. A obra custa R$ 44,00, possui 420 páginas em papel off-white 80 g/m² (o mais utilizando pela Record) e 16 x 23 cm (dimensões). E, antes de finalizar, destaco que o personagem George Smiley já foi interpretado pelo ator Rupert Davies, no cinema, na adaptação do terceiro romance de Le CarréO espião que saiu do frio, em filme homônimo de 1965. Na televisão, a BBC deu vida ao agente na atuação elogiada de Alec Guinness quando da adaptação, para a série em sete capítulos, de O espião que sabia demais.






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