sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

O Cemitério de Praga, romance de Umberto Eco [ Resenha ]

O cemitério hebraico de Praga, cujos túmulos foram sobreposto, a fim de obter melhor aproveitamento do espaço. Um sombrio beliche de cadáveres que inspirou Umberto Eco.

O Cemitério de Pragaé o mais recente romance lançado por Umberto Eco. Não sei se ele tem outro no prelo ou tampouco na agulha. Se não possuir, provavelmente este será sua última obra de ficção, considerando-lhe a idade avançada e o interesse já declarado em dedicar seu tempo a projetos diversos, no momento. O livro foi lançado aqui, em 2011, pela Record, em brochura com orelhas, 482 páginas em papel off-white 80 g/m² e tradução relâmpago de Joana Angélica d'Avila Melo.

Adorei a obra. Mas não gostei do título (Il Cimitero di Praga); acho que se deveria chamar “Simone Simonini”, pois abarca quase toda a vida desse falsário, desde sua infância até sua infeliz possível aposentadoria que, na verdade, nunca chega (para sua alegria de aventureiro inveterado). O cemitério de praga é apenas um dos pontos da trama. A propósito, não é a primeira vez que vejo Eco abordando o tema do complô que teria ocorrido no famoso cemitério hebraico de praga, de onde teriam partido os famosos Protocolos dos Sábios de Sião, texto mentiroso e ridículo utilizado por serviços de inteligência ao redor do mundo para justificar a necessidade de extermínio do povo judeu. O documento, ademais, é citado até mesmo por Adolf Hitler em seu Mein Kampf e foi um dos elementos que fundamentou a criação de campos de concentração e a “solução final” nazista. Os “protocolos” já foram examinados em ensaios antigos do autor e mencionados pelo mesmo no excelente gibi O Complô, de Will Eisner, quando lhe redigiu a introdução. Entretanto, acerca do título, isso não passa de devaneio meu. Se assim fosse, O Pêndulo de Foucault (segundo romance de Eco), não seria assim intitulado. Além disso, com nome do protagonista, já tivemos Baudolino (publicado aqui no ano 2001).

A trama é ocupada integralmente por personagens históricos, desde notórios como o oficial francês Alfred Dreyfus e Sigmund Freud até outros mais obscuros. O único “inventado” é o protagonista; embora, mesmo assim, seja composto de inúmeros aspectos retirados de personagens que realmente existiram (ou poderiam existir). Narrada quase que totalmente em flashback por meio de diários e bilhetes, a história gira em torno do mais frio personagem que já conheci. Simonini não é apenas um falsário dotado de enorme talento em reproduzir documentos para os fins mais reprováveis, mas, igualmente, assassino e aproveitador sem o mínimo de escrúpulos. Ao cometer o primeiro homicídio, por exemplo, não se questiona acerca das implicações morais ou religiosas do ato, mas, sim, das dificuldades em ocultar cadáveres.

Pela primeira vez, Umberto Eco nos deu um personagem gourmet e, com isso, não poupou em referências à culinária da época, até mesmo com descrição de algumas receitas, algo digno do Nero Wolfe de Rex Stout. Mas, também, aproveitou para, com bom humor, abordar a miséria que aflingia a maior parte das pessoas: “Quanto às refeições, descobri, à rue du Petit Pont, uma taberna onde se comia por quatro soldos: todas as carnes avariadas que os açougueiros das Halles jogavam no lixo, verdes nas partes gordas e pretas nas magras, eram recuperadas ao amanhecer, dava-se nela uma limpeza, derramavam-se em cima punhados de sal e pimenta, macerava-se tudo em vinagre, pendurava-se aquilo por 48 horas ao ar livre, no fundo do pátio, e, por fim, elas estavam prontas para o freguês. Disenteria garantida, preço acessível”. E, pela segunda vez, abordou como a manipulação de informações pode atingir a memória de forma negativa (Yambo, em A Misteriosa Chama da Rainha Loana, foi um protagonista desmemoriado). Em O Cemitério..., Simone Simonini, além dessa manipulação e da cultura que acumulara, também se habituara, durante décadas, a fingir, a ser outro, tornando-se até mesmo um mestre em disfarces. E, assim, encontramo-lo, no início de seus diários (escritos por recomendação de um tal Freud, “médico da cabeça” ainda desconhecido que também indicava a pura cocaína colombiana para melhor organizar as ideias), atordoado, sem saber quem realmente é e se um tal de Dalla Picolla, abade, seria ele mesmo, seu alter ego ou se ele não seria, por seu turno, uma projeção desse pároco. Aos poucos, no decorrer da leitura de suas anotações e de outros escritos atribuídos a este Dalla Piccola, compreendemos como sua vida em fingimentos abalou-lhe o juízo e dividiu, durante algum tempo, sua personalidade em duas.

Simonini não gosta de ninguém; e, celibatário convicto, só conhece o prazer na boa comida e em infringir a lei, bem como ofender a raça semítica. Já no primeiro capítulo, destila seu ódio sobre praticamente todas as nacionalidades que conhecera (inclusive sobre a sua própria); e, sobre as que desconhece, sempre supõe o pior, invocando o brocardo de que “odi ergo sum”. Esse ódio atávico (remonta a seu avô), não raras vezes, conflita em seu espírito e suas convicções assumem um contorno até delirante, como nessa passagem: “Como minha mãe, eu falava francês, como todo piemontês de boa extração (…). Desde a infância me senti mais francês do que italiano, como acontece a todo piemontês. Por isso, considero os franceses insuportáveis.”. O ódio, aliás, também é descaradamente exposto como instrumento de conveniência, como no discurso que mantém com o Oficial da temível Okhrana, Rachkovsky:
- Mas por que o senhor visa, em particular, os judeus?
- Porque na Rússia há judeus. Se fosse na Turquia, eu visaria os armêmios.
Os preconceitos sempre foram elementos essenciais no caráter de nosso anti-herói e paradigma no julgamento de todos à sua volta, desde pela inclinação religiosa ou nacionalidade até mesmo pela mera aparência física, como quando ele conhece outro russo, Rocher de Cancale: “Tinha olhos levemente oblíquos, com pupilas pequenas e penetrantes, que me lembravam olhos de fuinhas, embora nunca tivesse nem tenha visto uma até hoje (odeio as fuinhas tanto quanto odeio judeus).”.

Como em quase todas as suas obras de ficção, a Igreja também está presente em O Cemitério..., desde a formação do protagonista e mesmo pelo seu alter ego na velhice. No entanto, pela primeira vez, vi de forma aberta menção à pedofilia praticada por alguns clérigos: “Tarde abafada. Estou estudando. Padre Bergamashi senta-se silencioso atrás de mim, aperta a mão sobre minha nuca e sussurra-me que a um jovem tão pio, tão bem intencionado, que quisesse evitar as seduções do sexo inimigo, ele poderia oferecer não só uma amizade paternal como também o calor e o afeto que um homem maduro pode dar. Desde então, não me deixo mais tocar por um padre. Será que me disfarço de abade Dalla Piccola para eu mesmo tocar os outros?”.

Ser a Igreja está presente, sua oposição também possui representantes, em especial os satanista que praticavam “missas negras” com hóstias abençoadas e traficadas pelo próprios clérigos. As passagens dedicadas a esses rituais têm seu cerne na famosa suposta fraude perpetrada por Léo Taxil (e sua Diana Vaughan), histórico plagiador cara de pau que ludibriou, inclusive, o Sumo Pontífice Leão XIII. É interessante, por exemplo, o resultado das pesquisas de Umberto Eco sobre a liturgia satânica, como no trecho abaixo, reproduzindo as palavras ritualísticas geralmente empregadas na abertura da suruba ritualística: “No princípio era carne, e a carne estava com Lúcifer e a carne era Lúcifer. No princípio, ela estava com Lúcifer: tudo foi feito por meio dela, e sem ela nada foi feito de tudo o que existe. E a carne se fez palavra e veio habitar no meio de nós, na treva, e vimos seu opaco esplendor de filha unigênita de Lúcifer, cheia de bramidos, furor e desejo”. 

No decorrer da história, compreendemos melhor como a vida de mentiras habitada por Simone o levou à extrema paranoia e, com isso, lhe causou os lapsos de memória e a dualidade de personalidade. De acordo com os diários de Dalla Piccola, aliás, passamos a crer que “basta falar sobre alguma coisa para fazê-la existir”. E foi nas próprias mentiras que o protagonista passou a crer, após ter escrito seus relatos sobre a farsa do encontro de judeus e seus planos de dominação global: “Ah, verdadeiramente era preciso ter estado naquela noite no cemitério de Praga, por Deus, ou ao menos era preciso ler meu testemunho sobre aquele evento, para entender como já não se podia suportar que aquela raça maldita envenenasse nossas vidas!”. Ainda na intenção de extermínio de uma raça, achei curioso como a ideia da “solução final” (Endlösung der Judenfrage)  nazista é tão antiga. Muito antes de se supor algo tão abominável quanto o Holocausto, aparentemente, o termo que se supõe cunhado por Adolf Eichmann já era utilizando em alguns círculos, como na colocação de Osman Bey, com quem Simonini trava conhecimento e negociatas sujas: “Se desaparecessem do mundo todos os judeus, que com suas finanças sustentam os negociantes de canhões, iríamos ao encontro de cem anos de felicidade. (…). Um dia será necessário tentar a única solução razoável, a solução final: o extermínio de todos os judeus.”.

Enfim, um ótimo livro que recomendo para quem gostar de literatura; em especial, para quem aceita dedicar um tempo à leitura de obras mais densas, que exigem mais zelo na leitura e até mesmo alguma pesquisa. Em sebos do Estante Virtual dá para comprar por até R$ 13,00, pelo que já pesquisei.


Abraços sincréticos e até a próxima.





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