domingo, 26 de fevereiro de 2017

Morte em Veneza [ romance de Thomas Mann ]



Antes de dar longas férias a este blogue, vamos deixar uma publicação falando sobre o que pouco importa para a maioria das pessoas: a boa literatura. Especificamente, vamos discorrer um pouco sobre uma pequena grande obra-prima de Thomas Mann: Morte em Veneza na tradução de Eloísa Ferreira Araújo Silva (Der Tod in Venedig, publicada originalmente em 1912).

Gosto dos livrinhos da Biblioteca Folha. Foram baratos, quando lançados. E fáceis de encontrar como refugo de bancas ou, atualmente, em sebos. As encadernação são resistentes, o papel de qualidade razoável (não tão fino a ponto de vermos as letras do outro lado da página) e a impressão ótima. Foi por esta coleção que li Morte em Veneza(Folha de São Paulo, 2003), novela escrita por Thomas Mann, romancista germânico laureado com o Nobel de Literatura em 1929.

Na trama, Gustav "von" Aschenbach é um escritor renomado de Munique, reconhecido nacionalmente por suas grandes obras. Viúvo, reside sozinho entre sua casa na cidade e uma propriedade de veraneio no campo. Possui uma filha já casada, citada apenas brevemente na história. Sua ascendência é mestiça. Em determinado trecho, afirma que "um influxo de sangue mais agitado e sensual viera acrescentar-se à família na geração precedente, do intermédio da mãe do escritor, filha de um mestre de capela tcheco. Dela, herdara as características de uma raça estrangeira patentes em sua aparência". E essa referência acerca da genealogia "sensual" do protagonista liga-se à própria de Thomas Mann, filho de um político e comerciante alemão e da teuto-brasileira Júlia da Silva Bruhns. De certa forma, Gustav Aschenbach personifica vários aspectos de Mann.

Já no primeiro capítulo da novela, Aschenbach, durante uma caminhada, topa com um sujeito estrangeiro que inicia, em seu espírito, uma certa agitação. Em pouco tempo, ele descobre do que se trata: é vontade de dar um tempo, de mudar, de buscar noutras paragens um pouco de fôlego, longe da vida cotidiana em Munique. Ele decide viajar e, após um ínterim meio sem destino certo, resolve ir a Veneza, onde já estivera brevemente numa estada há certo tempo, mas precisara se ausentar em razão de problemas de saúde. Desta vez, ele conhece uma família polonesa também de férias e hospedada em seu hotel no Lido. E aí inicia-se sua desgraça: Tadzio, um adolescente que o atrai de várias formas. Inicialmente, achamos que se tratam de impulsos homossexuais do maduro Aschenbach.  E são, creio. Entretanto, além disso, há o aspecto estético: o escritor é amante da forma perfeita, e isso nos parece claro quando se discorre, já no início da narrativa, acerca de sua disciplina no ofício, com horários e métodos rígidos de escrita. Tadzio, para Gustav, é o "Belo" em sua forma mais pura de expressão física. Isso também é explícito quando, por várias vezes, discorre quanto a referências gregas, quando solto em seus pensamentos.

Em pouco tempo, ver o adolescente torna-se um obsessão. O escritor precisa acompanhar o garoto durante todo o dia, observando-o comer, brincar na praia e passear pelas ruelas fedorentas de Veneza. Não demora a começar segui-lo às escondidas. Durante todo o pequeno romance, em nenhum momento, os dois sequer chegam a se falar. Aschenbach contenta-se com um sorriso solto ao léu, que talvez nem seja para ele seja. E sonha com situações onde possa apenas dar um rápido afago nos cabelos do moleque por quem sente uma tara inexorável. Acredito que o maior empecilho à aproximação dos dois seja o próprio preconceito que o escritor tem com sua idade. Já na viagem de ida à Veneza, ele topa com um homem de idade que se mantem próximo a jovens, usa peruca e dentes postiços e assume um comportamento jovial. E isso não lhe agrada. Pelo contrário: lhe causa repulsa, asco. Só que, já perto do final da narrativa, ele mesmo não resiste à vontade de aparentar menos idade, aceitando os conselhos de um barbeiro para tingir os cabelos e submeter-se a um rápido tratamento de pele. E este é outro elemento relevante da obra: a resignação (ou sua falta) com o avanço do tempo e as marcas da velhice, em oposição ao "Belo", à "Juventude". A velhice, no caso, é feiúra, é uma quase morte.

Outro aspecto da novela é o turismo enquanto puro e enjoativo comércio. E compartilho dessa ideia. Nunca acreditei que viajar nos traz conhecimento verdadeiro. Acho que - sobretudo hoje - adquirimos conhecimento por meio do estudo, da pesquisa. Viajar, para mim, é mero entretenimento para arejar as ideias, para respirar melhor e combater o estresse da vida cotidiana. Não é uma passagem de três dias numa cidade distante que vai me dar o conhecimento de como é deveras a vida, ali. Terei uma mera impressão. Retirarei umas fotografias. E só! Nos trajetos com gondoleiros, Aschenbach só encontra chateação, paradas estratégicas junto à pontos de comércio e muita bajulação para que adquira badulaques e suvenires.


Já perto do final da trama, vemos o hotel veneziano sendo esvaziado por algumas famílias. A cidade está em processo de limpeza, com aplicação de desinfetante em vários canais. As autoridades sanitárias andam preocupadas - porém, silenciosas - e os comerciantes apreensivos com certos rumores. Há cheiro de morte no ar. O título da obra já nos diz que haverá uma morte; esta é quase anunciada e nos chega no último parágrafo da história. Não posso entregar mais, se não perde a graça!

A obra teve uma adaptação bem sucedida para o cinema. Abaixo, "linco" a produção integralmente disponível no Youtube, com legendas e boa resolução. Parte do sucesso do filme - além da competente produção de arte - ficou por conta do ator sueco Björn Andrésen, que incorporou o jovem Tadzio e que, de certa forma, amaldiçoou-se por isso, pois nunca mais conseguira outro papel à altura, sendo sempre recordado por esta interpretação de quando possuía apenas dezesseis anos. E, por  fim, uma curiosidade: enquanto no romance o protagonista é escritor, no filme é representado como um famoso compositor.



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