domingo, 26 de fevereiro de 2017

Lucille, de Ludovic Debeurme [HQ, review] [ Postagem republicada ]



Minha última HQ importante realmente lida foi Lucille, escrita e ilustrada pelo francês Ludovic Debeurme e traduzida, para editora LeYa Brasil/Barba Negra por Maria Clara Carneiro e Valérie Lengronne. Esse calhamaço com aprox. 550 páginas, no formato 17,5 por 23,0 cm, nos dá uma história bacana, narrada de forma simples, acerca da vida e do encontro entre Lucille - menina que sofre de anorexia - e Arthur, filho de um pescador que, ao falecer, lhe deixa toda a responsabilidade pela manutenção da família. Além disso, Arthur alivia seu estresse com surtos de transtorno obsessivo compulsivo, contando desde passos até batimentos cardíacos.

Estando numa livraria, conferi a edição original, muito mais bonita em sua encadernação em capa dura com sobrecapa. Tenho minhas dúvidas se essas versões em brochura servem para baratear o preço ao consumidor final ou, somente, aumentar a margem de lucro do editor brasileiro. Considerando diversos aspectos do País onde vivo, fico com a segunda hipótese. Aqui, o preço de capa ficou em R$ 55,00. Eu me contentaria em pagar mais uns R$ 10,00 por uma versão HC, considerando que, atualmente, não conseguimos fazer muita coisa com esse dinheiro, onde a inflação é galopante, embora o governo de nossa Presidente finja não ver.

O traço de Ludovic é limpo e simples, sem floreios. Minimalista, ele usa o necessário para narrar a história. Você não encontra um grama de gordura em toda a obra. Conquanto a anorexia e a introspecção de Lucille tenha feita do nome desta o mesmo da obra, penso que a personagem mais emblemática de todo o volume é Arthur. [Cuidado, alguns spoilers a partir daqui] Poucos antes de suicidar-se após sucumbir aos excessos de responsabilidade, o pai de Arthur lhe diz que, na Polônia (sua terra natal, de onde emigrou), é tradição a passagem do nome do pai ao filho, após o falecimento do primeiro. Assim, logo na metade da história, Arthur não apenas assume as obrigações pelo futuro da família, mas, também, precisa carregar até mesmo o nome de seu pai, passando a chamar-se Vladimir. Os momentos sem texto, onde Arthur segura por horas o corpo do pai, ainda com o pescoço preso à corda, são uns dos mais bonitos da obra, assim como os trechos em que Arthur tira o cabaço de Lucille (dizendo que vai colocar só a cabecinha!).

Logo após conhecerem-se (Arthur entregava remédios na casa de Lucille), os dois fogem para um vilarejo na Itália, onde vão trabalhar para uma estranha, violenta e frustrada família de fabricantes de vinho. Ali, um novo personagem - Adolpho, playboy filho do produtor - tem um papel fundamental na trama, como um muro frente ao amadurecimento do jovem casal.

A obra aborda o peso do controle social, com uma garota ruindo diante de exigências estéticas, querendo ser como sua boneca de infância: linda, sem óculos, e macérrima. O sexismo também está ali, com a fragilidade de Lucille sendo posta à prova pelos modos grosseiros de Arthur e, mais à frente, com a tentativa de estupro do italiano Adolpho. O atavismo é representado na relação entre Arthur e seu pai. Alíás - também sem coragem para enfrentar mais os problemas da vida - o garoto corta os próprios pulsos, e a trama encerra-se sem sabermos se ele escapará da morte. Lucille retorna à sua casa e, antes de chegar, a história acaba com um "Fim da primeira parte". Em 2011, na França, foi publicada a continuação, intitulada Renée. A LeYa tem a obrigação de editar essa HQ por aqui o mais brevemente possível. Assim como gostei de Lucille, creio que gostarei de Renée. Já estou no aguardo!

O trabalho de Ludovic Debeurme me lembrou, bastante, a realização de Cyril Pedrosa em Três Sombras, outra HQ francesa que já li, gostei e resenhei aqui no blogue.



Um comentário:

  1. Pena que não publicaram tudo. Dá uma ansiedade de terminar a estória.

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