segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Livros que nos mudam



Há livros que nos marcam. Isso parece bobo de se dizer. Cresci ouvindo a mesma ladainha. Mas é verdade. Não só livros: toda forma de expressão por meio da arte possui o poder de nos transformar; se não significantemente, ao menos deixa rastros em nosso espírito. Hoje, revisitando a estante empoeirada, fui direto a duas obras que mudaram minha forma de ver o mundo.

A primeira é O Jogo das Contas de Vidro, do escritor alemão Hermann Hesse, laureado com o Nobel de Literatura em 1946. É um romance de formação (acho). Nele, acompanhei um pouco da vida de José Servo, desde a infância até sua consolidação no posto de Magister Ludi na fictícia comunidade intelectual de Castália. Não entregarei muito do enredo, pois este não é objetivo desta postagem. Na história, Hermann Hesse - cânon da Literatura ocidental - concebe uma sociedade intelectualmente avançada - Castália - que mantém em suas cercanias as mentes mais brilhantes, dedicadas ao cultivo do conhecimento humano. Em especial, o culto à razão fica evidente na atenção que conferem à Matemática e à Música. Reunindo todas as formas de cultura e de conhecimento, Castália promove regularmente O Jogo de Avelórios. Este "jogo" nunca foi devidamente esmiuçado por Hesse, que apenas no passa uma ideia de sua complexidade. José Servo, como Mestre do Jogo de Avelórios, assume o encargo de organizá-lo. Entretanto, aliada ao culto pelo conhecimento puro, a vida em Castália é conduzida por uma cotidiana e extensa busca espiritual, por meio de meditação. Não é à toa que a obra é dedicada "aos peregrinos do Oriente". Acompanhar a trajetória espiritual de José Servo mudou algo mim: justamente... o reconhecimento da vontade de mudar. Um dia, talvez, chegue lá.
"As regras, a linguagem figurada e a gramática do jogo constituem uma espécie de linguagem oculta altamente evoluída de que participam várias ciências e artes, especialmente a matemática e a música (ou seja, a musicologia). Tal linguagem tem a possibilidade de expor o conteúdo e os resultados de quase todas as ciências e de relacioná-los entre si. O Jogo de Avelórios contém, portanto, a suma e os valores de nossa cultura, manejando-os assim como, na época do apogeu das artes, um pintor maneja as cores de sua paleta. Todos os conhecimentos, pensamentos excelsos e obras de arte que a humanidade produziu em suas épocas criadoras, tudo que os períodos posteriores produziram em eruditas considerações sob a forma de conceitos, apropriando-se intelectualmente daquele poder criador, todo esse imenso material de valores espirituais é manejado pelo jogador de avelórios como o órgão é tocado pelo organista." (Trecho de O Jogo...).
O segundo livro foi O Arco-Íris da Gravidade, do enigmático norte-americano Thomas Pynchon (alguém realmente já o viu por aí?). Acho uma obra impossível de resenhar. Antes de ler o calhamaço delirante de Pynchon, nunca supus o que é realmente possível fazer em matéria de escrita. Sempre achei normal assistir a filmes ou a seriados recheados com cenas malucas, edições mirabolantes e delírios. David Lynch, aliás, está aí para isso. Mas como imaginar que seria possível, numa narrativa escrita, construir uma trama enciclopédica, recheada de referências à linguagem cinematográfica, musical e das histórias em quadrinhos, extremamente psicodélica, nos revelando o que realmente vem a ser o estado mais refinado de paranoia e entropia? Só em Thomas Pynchon. Neste seu romance icônico, temos personagens que somem sem explicação para ressurgirem noutra roupagem, complôs secretos internacionais que utilizam truques cinematográficos para abalar adversários, homens que caem privada adentro e nadam entre cocôs gigantes, taras de toda a natureza em plena Segunda Grande Guerra e um homem que prevê onde um míssil V2 poderá cair em razão de suas ereções. Curioso ou complicado? Leiam o romance.
Um grito atravessa o céu. Já aconteceu antes, mas nada que se compare com esta vez. 
É tarde demais. A Evacuação ainda continua, mas é tudo teatro. Não há luzes dentro dos vagões. Não há luz em lugar nenhum. Acima de sua cabeça elevam-se vigas velhas como uma rainha de aço, e em algum lugar lá no alto vidro que deixaria entrar a luz do dia. Mas é noite. Ele tem medo do modo como o vidro vai cair – em breve –, vai ser um espetáculo: o desabamento. Porém caindo na escuridão total, sem nenhum lampejo de luz, só um grande estrondo invisível. (Início de O Arco-Íris...).
Eu gostaria de destacar outros livros igualmente relevantes à minha formação humana. Mais à frente, talvez o faça. De qualquer maneira, ficam as sugestões a quem pretende buscar aventuras mais ousadas neste novo ano (no campo da leitura, claro). Demais dados bibliográficos são facilmente encontrados na rede. Abraços!


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