domingo, 26 de fevereiro de 2017

Livros de André Dahmer [ e considerações sobre as HQs nacionais ]



O quanto perco em luz conquisto em sombra.
E é de recusa ao sol que me sustento.
(Carlos Pena Filho)

André Dahmer é um sujeito integrado à paranoia digital e ao consumismo desenfreado onde vivemos. Desde o ano de 2001, possui site dedicado à divulgação de suas tirinhas de maior sucesso: Malvados. Além disso, mantem contas em Twitter e Facebook, onde dissemina seus trabalhos e nos alerta acerca das novidades, como, por exemplo, o lançamento de seu mais recente livro de reunião de tiras: Vida e Obra de Terêncio Horto, pelo selo Quadrinhos na Cia. Se você quiser, pode acessar sua lojinha eletrônica e adquirir canecas e cinzeiros com seus personagens estampados por um precinho até salgado. Ou pode lhe comprar originais, serigrafias ou telas por valores que oscilam de R$ 300,00 a uns R$ 850,00. Mas, em seu trabalho, Dahmer procura nos deixar bem claro que é avesso a tudo isso: vida digital em demasia, consumo, lucro etc.. O artista, em seus quadrinhos, nos diz que tudo isso não presta e nos mostra todo um estado negativo de entropia. Ele quer lagar tudo e morar no mato, vivendo de luz e paisagismo.

Pergunta-se: André Dahmer é a Luciana Genro das HQs? Luciana, aquela presidenciável que seduz os incautos que desconhecem noções de Estado, Política e História, uma “garota” bem criada na nata da sociedade, que se tornou esquerdinha que come caviar e arrota comunismo e, de quebra, ainda engrupiu alguns bobos ao levantar a bandeira do aborto e da “causa gay” – embora não reconheça publicamente que, no regime de Estado por ela defendido, o aborto é aplicado até forçadamente e homossexuais são os primeiros a queimar na fogueira. A resposta é: não sei. Não vou adentrar nesse aparente paradoxo do autor. Não sei se ele realmente se acha um subversivo imberbe que luta com sua arte contra o sistema cruel e opressor. Pode ser que ele seja um autocrítico; ou pode ser que doe toda sua grana para o Greenpeace ou abrigo de idosos mais próximo. Vai-se saber.

Mas vale a pena ler suas obras? Sim. Da nova leva de cartunistas, André Dahmer é um dos bons, com seus personagens bem construídos, humor negro, diálogos ácidos e repúdio ao enjoativo politicamente correto implantado em nosso País há exatos doze anos. Claro, ser um dos bons, atualmente, não é grande coisa. Explico: é que o cartunismo jovem é um lixo em comparação aos medalhões que já “tivemos”: Ziraldo, Jaguar, Millôr, Fortuna etc.. Ainda temos gente de naipe produzindo, como Laerte e Angeli. Glauco foi assassinado por um lunático que hoje talvez viva bem neste País de impunidade institucionalizada. Caras como Adão, Galhardo, Nani etc., não andam lá com essa bola toda, produzindo apenas material “meio boca”. Laerte só pensa em HQs sobre travestis e, quanto a Angeli, vivemos de seu passado (de ouro, diga-se). Essa turma nova - a exemplo de Dahmer e Allan Sieber - é muito legal para entreter, justamente pela ausência de pudores. Mas são meio “adolescentes”. Escrevem como se estivessem dando uma grande sacada acerca da vida contemporânea ou analisando o complexo ser humano, em grupo ou individualmente. Entretanto, suas tirinhas divertidas não passam de material que dificilmente ficará para a posteridade, recheado de frases feitas e lugares comuns. Vale a pena comprar livros desses caras? Ratifico: sim. Só que não esperem nada de extraordinário.

Enfim. Do Dahmer, tenho os livros das imagens desta postagem: O Livro NegroMalvados e A Cabeça É A Ilha. Também tenho seu ótimo livrinho de poemas, pensamentos e ilustrações Minha Alma Anagrama de Lama. Sobre este, vale destacar: foi elaborado a partir da digitalização de um caderninho do autor, e editado o mais próximo possível do original. É como se o autor multiplicasse seu caderno com os leitores. Os poemas têm qualidade e encontram ressonância – penso – em Ferreira Gullar (só que mais comprimido) e Paulo Leminski (aliás, citado em epígrafe à obra). O título foi retirado da quadra de sua autoria: “Depois de morto / renascer na grama / minha alma / anagrama de lama”, com um Superman estampado logo ao lado. Acho uma grande sacada o aproveitamento do espaço pelo artista. Assim, por exemplo, os versos se deslocam de uma linha horizontal para outra vertical, de cima a baixo, de acordo com a ideia de movimento ou posição necessária. Ao final do “caderno”, ganhamos um galeria com desenhos. Gosto dos “bonecos” de Dahmer: parecem pessoas vindas de outro planeta, com gigantismo ou elefantíase; são apenas seres humanos entortados. É um artista que, em muitos momentos, encontra “seu traço próprio”.

Se encontrar livros do autor por aí, compre. Será diversão garantida. Se você tiver pudores com certos temas e abordagens, nesta atualidade artificialmente antisséptica e maluca, continue sendo isso: um bobo cheio de frescuras e “politicamente correto” e não invista sua grana nessas páginas negras. Na lojinha eletrônica do autor dá para encontrar livros seus editados pela Desiderata. O de poemas e desenhos pode ser comprado direto pela Mórula Editorial com frete grátis. Ainda acredito na sobrevivência do cartum. Espero que o sucesso editorial de caras como André Dahmer estimulem a produção nacional e, um dia, nos apresente à luz gênios à altura de Ziraldo, Henfil, Borjalo ou o precoce Vagn. Sou um homem de fé (embora limitada, diante da inflação da babaquice e do “bundamolismo” nacional que nos assola).

Até a próxima postagem. Abraços.


Livros e HQs de André Dahmer por kleiton-alves

2 comentários:

  1. Gosto muito do trabalho do Dhamer, apesar de discordar totalmente da sua visão política (é, ou era, apoiador do PSOL). Acho que "Livro Negro" sensacional. Já o "Cabeça" achei muito depressivo, não curti e revendo no Mercado Livre. Quero comprar o Quadrinhos dos Anos 10, mas está muito caro pro meu bolso no momento.

    Abraço.

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    1. Já fui simpatizante de comunismo por razões filosóficas. Infelizmente, ao mudar de ponto de vista, muitas pessoas se afastaram de meu blogue e desfizeram laços digitais diversos. Uma pena, mas tanto faz. Não faço questão de coleguismo com pessoas sectárias. Se se afastam, é pq não servem para trocar ideias. Esquerdismo é realmente algo muito poderoso. Lida com emoções e despreza totalmente o racional.
      O Dhamer realmente bosteja muito quando fala de política e gosta de se dizer "de esquerda" aos quatro cantos, acho que sem saber que, assim, está advogado a favor da miséria e dos gordos salários dos políticos e ocupantes de cargos em comissão!
      Abraços!!!

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