domingo, 19 de fevereiro de 2017

Clube de Compras Dallas e a cores da Benetton



Sempre vi Matthew McConaughey como um ator insignificante de comédias românticas. Jared Leto chamou minha atenção desde seu pequeno papel em Clube da Luta e, posteriormente, ao viver Mark David Chapman - o maluco que atirou em John Lennon apenas ganhar fama - no filme Chapter 27. Esses dois ganharam os óscares mais recentes por suas atuações em Clube de Compras Dallas (Dallas Buyers Club, 2013). E me rendi a Matthew McConaughey. Ambos merecem reconhecimento pelo esforço físico (perda excessiva de peso) e espiritual neste trabalho.

Em 1985 - talvez a década mais dramática para vítimas da AIDS -, Ron Woodroof, um eletricista porra-louca, heterossexual e homofóbico, é diagnosticado com HIV. Na verdade, já desenvolvera AIDS e seu organismo está quase em colapso. No meio de discussões acerca de tratamentos e com o início do debate em torno do AZT (azidotimidina) como medicação mais indicada, Ron Woodroof e Rayon (travesti também soropositivo interpretado por Jared Leto) iniciam um tratamento alternativo com substâncias não tóxicas, mas cuja entrada nos EUA é vedada pelo FDA (U.S. Food and Drug Administration). Visando ao lucro, também estendem seu coquetel a todo aquele que se associar a um clube de distribuição de remédios, cuja mensalidade era de US$ 400,00. Mais à frente, Ron Woodroof abandona a ideia de lucro e quer apenas oferecer, sem incômodo pelo FDA, substâncias que aliviem o sofrimento dos vitimados pelo HIV.

O filme tem momentos de bom humor, ao mostrar as artimanhas de Woodroof para introduzir ilegalmente seus produtos no país. Mas esses momentos são contrabalanceados pelas imagens de jovens devastados pela AIDS diante de um Governo ainda inerte quanto a ações públicas na área. No senso comum, o HIV ainda era reconhecido como um vírus que infectava apenas homossexuais. O próprio Ron perde todos os seus antigos amigos, que picham sua residência com "sangue de bicha". Aos poucos, ele se vê cercado apenas por contaminados; quase todos, homossexuais. Entretanto, não há romantismo nem conversão abrupta do personagem. Ele ainda mantem seus preconceitos, embora comece a estreitar seus laços com Rayon e outros gays, com certas limitações.

Entre as cenas de destaque, cito o momento de desespero de Ron Woodroof dentro de seu carro, sozinho, enquanto pensa em atirar contra a própria cabeça; e, claro, os momentos finais de Rayon, agonizando e afirmando que não quer morrer. Não encontrei essas cenas separadas para postar. E, ao invés do trailer, compartilho a cena abaixo, encontrada no YouTube, mostrando um pouco da excelente atuação de Jared Leto.

Assistam a essa obra de arte dirigida por Jean-Marc Vallée. O roteiro escrito por  Craig Borten e Melisa Wallack foi baseado numa história real. Vale cada minuto de suas quase duas horas de duração. Demais dados técnico podem ser conferidos neste link.


Como o assunto é Clube de Compras Dallas, acho interessante, mencionar um pouco do conjunto de fotografias icônicas do ativista David Kirby em seus momentos finais de vida, vitimado pela AIDS na década mais obscura da doença: os anos oitenta. A imagem ganhou repercussão por sua associação à famosa La Pietá de Michelangelo. Ao invés de Maria segurando o cadáver do filho, a principal fotografia do acervo mostrou Bill Kirby, pai de David, o acalentando sobre a cama. O ativista não cobrou nada por sua imagem, certamente. E ilustrou uma das mais conhecidas páginas da revista LIFE. O grupo Benneton, entretanto, coloriu digitalmente a fotografia e lhe imprimiu seu conhecido slogan: United Colors of Benetton. Não demorou para essa conduta ser atacada como medida oportunista por esta gigante da moda. Afinal, o povão adora polemizar até mesmo com Roberto Carlos fazendo um comercial; quanto mais com um tema tão delicado quanto à síndrome da imunodeficiência adquirida. Ainda penso que a conduta da Benneton não foi oportunista. Acho até que foi admirável uma poderosa transnacional da moda associar sua marca à figura de um homem fragilizado, em seus últimos dias vivo. No livro Tudo Sobre Fotografia da editora Sextante há duas páginas dedicadas à análise da fotografia colorizada. Felizmente, com o tratamento de hoje em dia, imagens como essa são raras em países razoavelmente desenvolvidos.

Os últimos momentos de David Kirby, por Therese Frare
Campanha da Benetton

Imagem de meu exemplar.


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