domingo, 19 de fevereiro de 2017

As capas de Chris Ware para a The New Yorker


Sempre recomendo Chris Ware a despeito do que digam os frustrados na nona arte, aqueles que só aceitam publicações descompromissadas, de mero entretenimento e acham que todo o resto é pedantismo e falcatrua (sim, esses caras existem!). Ainda considero Jimmy Corrigan - O Menino Mais Esperto do Mundo uma das melhores HQs já publicadas. E, igualmente, vejo Chris Ware como o artista de história em quadrinhos mais competente em atividade. Seu traço geometricamente impecável parece feito com recurso digital (mas não é, exceto pela colorização). Sua paleta de cores é suave e precisa. O mosaico de seu leiaute remete a infográficos. E seus roteiros são poesia pura, até quando as histórias não possuem balão ou recordatório. Mesmo numa imagem de quadro único, Chris Ware consegue muito. Esses dias, remexendo capas da mítica The New Yorker, me deparei com trabalhos seus e destaco as duas realizações abaixo.




Na imagem acima, temos um apartamento típico de uma família americana comum. Provavelmente, situado na cidade de Nova Iorque. No quadro superior, a família é de uma época perdida. Até a colorização dá um aspecto antigo. As pessoas comem em paz e conversam. Pela janela vemos a neve. E os idosos têm vez e atenção. O único distraído é um garoto: lendo suplementos de quadrinhos. No plano inferior, estamos numa época mais atual: todos incomunicáveis diante à TV, nenhum idosos por perto (provavelmente recluso em algum cômodo) e a mais jovem do ambiente se distancia para falar ao telefone.

Na segunda capa, outra cena típica da classe média americana: uma apresentação teatral infantil, certamente organizada pela escola. Cada pai registra o momento por meio de algum aparelho celular ou tablet, sempre focando em seu rebento. E, assim, não apenas deixa de apreciar o todo da apresentação como apenas registra uma pequena parte do esforço coletivo. Um detalhe: acredito que o perfil à esquerda, com óculos, é do próprio Chris Ware (sua aparência é bem peculiar). O mais interessante dessas capas de Ware é que, aos poucos, formam uma história. O leitor regular da revista vai ganhando histórias à conta-gotas. Isso é simplesmente fantástico, ainda mais para gente como eu que é um admirador contante das capas da revista.

De Chris Ware, infelizmente, só temos Jimmy Corrigan editada no Brasil e alguns quadrinhos esparsos (já vi trabalho seu na excelente revista _piauí). Encadernado, somente a edição da Quadrinhos na Cia. De fora, você pode adquirir dois belíssimos sketchbooks e o controverso Building Stories. A seguir, deixo-os com vídeo abaixo onde comento um pouco sobre seu trabalho.


Quadrinhos e sketchbooks de Chris Ware por kleiton-alves

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