sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

A Memória Vegetal de Umberto Eco e o colecionismo


Imagem de meu exemplar.

Conclui a leitura de A Memória Vegetal & Outros Escritos Sobre Bibliofilia de Umberto Eco. Este grande escritor também é colecionador de livros raros e frequentemente convidado a escrever catálogos para feiras, antiquários e casas de leilões afins. Gostei bastante da obra, especialmente por conhecer um pouco mais até onde chega a loucura desse ramo do colecionismo onde uma nervura a mais na lombada pode quadruplicar o preço da obra, e onde pessoas gastam fortunas para adquirir livros que jamais serão lidos. Amo o livro como objeto; mas jamais compraria um se não pudesse lê-lo. Sei que algumas pessoas compram "apenas" pelo aspecto do colecionismo, considerando ano, raridade e estado da obra. Não os critico. Acho que quem possui muita grana tem mais que torrar com o que lhe dá prazer.

A edição é da Record com tradução de Joana Angélica D'Ávila. Esta espetacular tradutora empreendeu uma tarefa hercúlea. Não deve ter sido fácil compreender tantos trechos técnicos do mercado obscuro da bibliofilia. Além disso, sua pesquisa foi ainda mais interessante quando nos deparados com algumas "N. da T." bem interessantes e essenciais à compreensão de alguns trechos. Foi dessa mesma profissional a tradução de O Cemitério de Praga, já resenhado por mim.

O livro é pequeno. Possui em torno de 270 páginas, naquele ótimo papel amarelado (tipo off-white) para se ler sem ofuscamento pela luz, cansando menos. É dividido em quatro temas, com vários artigos compondo seu conjunto (anteriormente publicados a esmo em diversos veículos especializados). Já está na segunda edição. Não seria interessante resenhar esta obra, aqui, pois são diversos os temas abordados, dentro desse estranho mundo dos bibliófilos de carteirinha. Mas achei legal destacar algumas passagens. Em um determinado momento, Eco cita os leitores de quadrinhos de uma maneira engraçada: "Vejam, portanto, como até um colecionismo modesto e não bilionário pode contribuir para a conservação de um imenso patrimônio de memória vegetal. Mirem-se no exemplo dos colecionadores de história em quadrinhos, que protegem sob invólucros de plástico velhos álbuns impressos em papel vagabundo, constituindo arquivo de uma literatura frequentemente menor, muitas vezes até péssima, mas que deve permancer ao menos como documento de costumes". Ah, ressalto o "frequentemente"; como sabemos, Eco não é odioso em relação aos gibis, já tendo escrito até introdução à HQ O Complô, de Eisner, e escrito seu quinto romance sobre essa forma de comunicação em massa, de maneira até ilustrada.

Em outro momento da obra, o autor nos fala sobre "as loucuras dos especialistas", onde muitos grandes autores de hoje já tiveram seus trabalhos apedrejados no início. Eu já conhecia alguns dos exemplos ali narrados de uma matéria antiga da revista Veja, sobre os fatos coletados por André Bernard em seu livro Rotten Rejections. Bem colocado por Eco é que algumas obras só encontram respaldo mais à frente, quando encontram seu momento; assim, "convém deixar as obras de arte em repouso, como os vinhos".

Também encontramos muito bom humor no decorrer da leitura - isso é regra nas obras de Umberto Eco. Ao final do livro, nos deparamos com alguns "crônicas" sobre mundos imaginados. Numa delas, estão em análise escritos que um pesquisador alienígena elaborou acerca de uma extinta raça humana: "(...) decifradores marcianos bem rapidamente haviam elaborado manuais de tradução (o primeiro termo decifrado foi "cu", entendido como "lugar genérico onde se vai tomar alguma coisa")".

Fica a sugestão de leitura! 

Abraço a todos.


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